OPINIÃO | Mídia e Favela: como se dá essa relação?

Foto: Renato Moura
Foto: Renato Moura

Por que a grande mídia não sabe falar sobre o morro e como é que o morro faz a sua mídia?

Boa parte da população brasileira está inserida nesse emaranhado de informações que se dá através da diversidade de ferramentas tecnológicas que nos cercam. Não importa por onde, a notícia dá um jeito de chegar.

É nessa pluralidade de informações que temos como principal agente, a mídia. Entende-se como mídia, nesse contexto, ações  feitas por diversas ferramentas comunicativas que  tem como meta atingir um público e com isso deixá-los a par da situação. Mas como se dá a relação da mídia ao  narrar os acontecimentos nas favelas?

Quando a narrativa sobre o que acontece dentro das favelas é abordada pela grande mídia, o discurso é, majoritariamente, através de uma única categoria: a violência.  Segundo o Observatório Mídia do projeto Mídia e Favela, foi feito um acompanhamento aos jornais O Globo, Extra e Meia-Hora, nos meses de maio e junho. Os gráficos abaixo apontam uma análise mensal, aos temas abordados pelos três veículos em suas matérias sobre as favelas. Todos estes veículos persistem e dão ênfase a um único assunto “violência, criminalidade e drogas”.

(fonte das fotos sobre os gráficos)

fonte: http://observatoriodefavelas.org.br/wp-content/uploads/2013/06/Midia-e-favela_publicacao.pdf

Isso alimenta ainda mais a visão pejorativa da identidade social dos moradores de favelas. Cria-se uma interpretação diretamente ligada à forma negativa com que essas comunidades são narradas nos grandes setores de comunicação, podendo anular ainda a existência de manifestações artísticas e culturais deste território. Fica claro, que a grande mídia apresenta uma certa cobiça pela cobertura dos fatos relacionados à criminalidade. É claro que ela não descarta outras pluralidades de informações. Mas, quando se trata da representação do risco nas grandes cidades, é sobre os pobres, seus crimes e seus locais de moradia que se constroem os discursos midiáticos.

É claro que dentro da grande imprensa há programas ou coberturas que apresentam a favela sob uma perspectiva mais progressista e real, fora de todo esse contexto narrativo. Mas ainda estamos escassos desse tipo de representação.

Fazendo um constaste a isso, estão as mídias comunitárias, tendo um papel de grande importância para o público favelado. Não é uma mídia sobre o morro, mas produzido para o morro e por quem mora nele.

As mídias comunitárias adotam uma plataforma totalmente diferenciada dos veículos de grande mídia.  Seus propósitos são outros, enquanto de um lado temos uma mídia tradicional, cujo o interesse é atingir às grandes empresas, do outro temos uma ‘mídia de rua’, não se limitando somente à um foco narrativo, ela se permite sair do assunto violência e possibilita apresentação das manifestações de artes, eventos, entre outros atos que realmente realçam a potencialidade favelada.

Foto: Renato Moura/Voz Das Comunidades
Foto: Renato Moura/Voz Das Comunidades

Essa comunicação popular não é somente para eles e feito por eles, mas também é para atingir o público de fora, mas causando um outro impacto, o de resinificação da favela. Precisa-se de uma democratização da comunicação. Tem que se sair dessa bolha e de um discurso repetitivo pela mídia tradicional.  Essa democratização precisa abrir alas para uma diversidade maior de vozes interferindo no cenário geral da sociedade. Se a gente tem uma mídia altamente interessa em lucro, a crise na mídia ainda vai continuar a existir.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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