Quando foi que cê pisou numa favela pra falar sobre o seu feminismo?

Foto: Elana Paulino \ Projeto Favelagrafia
Foto: Elana Paulino \ Projeto Favelagrafia

O título é um trecho da canção ‘De dentro do Ap’, de Bia Ferreira. Queremos saber; da internet a favela, até onde vai a onda feminista?

Texto: Carol Saraiva

Muito se ouve falar sobre igualdade de gênero e empoderamento, mas a grande questão é até onde chega esse discurso e qual impacto ele causa em lugares em que a mulher se encontra em condições mais vulneráveis. Partimos do princípio em que, quando pensamos na separação histórica entre mulheres negras e mulheres brancas, temos a luta das mulheres brancas pelo direito de serem reconhecidas como um ser independente, já que ser mulher era significado de ser frágil, indefesa e extremamente dependente do gênero masculino. Em contrapartida, tínhamos as mulheres negras que eram definidas pelo sistema escravagista como desprovidas de gênero e não vulneráveis – como eram caracterizadas as mulheres brancas – o que as levava ao trabalho pesado.

No movimento feminista de ontem e hoje percebemos a ausência constrangedora de análises e debates sobre a mulher negra que até hoje vive em desigualdade com a mulher branca. Com isso, temos um movimento elitista que por sua vez prega igualdade, mas se recusa a enxergar que seu discurso excludente não chega nem no “pé do morro”, quem dirá dentro da casa da senhora que passa o seu dia inteiro realizando trabalhos domésticos.

Foto: Anderson Valetim \ Projeto Favelagrafia

O mundo cada vez mais reconhece a força da mulher através dos movimentos virtuais, passeatas e atos, porém é preciso ligar os seguintes dados que são alarmantes a vulnerabilidade social na qual as mulheres negras e periféricas estão submetidas. Em 2017, o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência enfatizou que uma mulher negra tem mais que o dobro de possibilidade de vítima de um homicídio em relação a uma jovem branca. Lutar por condições de igualdade, é não aceitar que o Estado nos imponha que algumas vidas estão em condições inferiores e por isso podem ser esquecidas, e por consequência, tiradas.

O livro de Angela Davis ‘Raça, Classe e Gênero’ nos propõe fazer uma ligação entre os dilemas de uma mulher preta e periférica, o que quer dizer que para tratar de assuntos que são pautas do feminismo atual, como o aborto, precisamos olhar que segundo o IBGE, o índice de aborto provocado no país por mulheres negras é o dobro do índice verificado entre as brancas, o que nos prova que o discurso de que “é pela vida das mulheres” precisa ser ampliado. É preciso olhar para o histórico de exploração das mulheres negras e entender que a ideologia machista que oprimiu as brancas, não oprimiu as negras, ela as massacrou. As escravizadas do passado são as periféricas que ocupam cargos de trabalhos pesados, e para elas sobrou a hipersexualização e desvalorização.

É preciso descer do prédio e largar o celular, para subir o morro e dialogar com quem nem se quer sabe o significado de feminismo, só assim entenderemos e teremos noção do que Angela Davis propôs com a frase: “Um feminismo com viés de classe é necessariamente um feminismo antirracista.”

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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