2015 não deixou dúvidas: a polícia do Rio tem que mudar

Foto: Renato Moura

SilviaRamos#Colunista ConvidadaFoto: Renato Moura

O Brasil está entre os dez países mais violentos do mundo com seus 58.000 homicídios por ano. O estado do Rio de Janeiro contribui com aproximadamente 5500 mortes para esse recorde. Em termos esta s cos, nossa situação atual é melhor do que era há dez anos, mas em termos sociais e políticos atingimos um limite histórico em 2015.

Depois de mortes que traumatizaram a cidade, entre elas a do menino Eduardo de Jesus, na Grota, que virou um caso de repercussão internacional, fechamos o ano com o fuzilamento de cinco jovens em Costa Barros. Todos mortos por uma polícia fora de controle.

Essa é uma marca da política de segurança do RJ que chama a atenção do mundo todo: as mortes provocadas pela ação policial em 2015, os chamados autos de resistência, vão chegar perto de 700. Quando eu viajo para o exterior e falo esses números, as pessoas não acreditam: como a própria polícia, que serve para proteger, consegue matar tanta gente? As vezes eles perguntam: e vocês deixam? Onde a polícia age com violência e desrespeito?

Quase todas as mortes por ação policial acontecem nas favelas ou perto delas. A polícia frequentemente age dentro das favelas como se tivesse licença para matar – principalmente se o alvo for um jovem negro – e age de outra maneira nos bairros ricos. Nas favelas a polícia se sente à vontade para fazer coisas que não faz em outras partes da cidade. Onde mais a PMERJ teria coragem de ocupar uma escola durante meses, como o CAIC Theóphilo de Souza Pinto, senão no Complexo do Alemão? Com os 1804 policiais que ocupam o Complexo, a PM terá que mudar se quiser sobreviver. Eu acho que chegamos a um ponto sem retorno. O secretário de segurança e o comandante da PM lamentam que os policiais sejam violentos, mostrando que o discurso das chefias e a prática da base da corporação não coincidem. Resta a nós, a sociedade, exigirmos que a polícia mude. Vamos continuar falando disso e nos manifestando até uma mudança radical ocorra.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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