A ação vale mais que um like

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Toda semana, de segunda a quarta, é o mesmo perrengue: qual será o assunto da coluna no Voz da Comunidade? Como posso usar minhas palavras para inspirar alguém? Como usar essa plataforma (inter)nacionalmente conhecida para dizer algo relevante para o nosso país?

Minha dúvida não é só minha. Na busca pelo discurso mais tocante, um montão de gente publica um montão de coisas, todos os dias. Na real, fico um pouco chocado com a velocidade que artistas visuais expressam sua dor sobre as tragédias em questão de horas. Bate uma preocupação verdadeira quando a internet usa suas forças para repercutir ‘o que a mídia não mostra’, mesmo tendo sido capa de jornal ou assunto do repórter da TV de noite.

Pois é, a coluna de hoje não fala dos 5 rapazes brutalmente fuzilados pelo Estado. Não fala dos 77% dos jovens negros mortos pela polícia. Não fala da violência contra a mulher que em pleno século XXI ainda não acabou. Não fala dos rombos nos cofres da união, nem da alta do dólar, nem de armazenar vento, nem da mídia golpista, nem do Cunha (fora!). Não fala de nenhum desses assuntos sérios e urgentes pra nação.

É que no meio da correria, das bandeiras e do montão de discursos inflamados, a gente esquece de parar pra pensar um pouco e ver o rumo que tomamos. A guerra lá fora toma uma forma ridícula na internet, travada entre likes e retweets. É uma batalha sangrenta pelo compartilhamento.

A gente tem que parar com isso.

Afinal, a morte daquele menino sírio deveria se tornar assunto pra uma obra de arte? Os corpos ensanguentados dos rapazes da Palio branca precisavam mesmo ser expostos? Fazer piada com o discurso machista do Bolsonaro deveria mesmo rolar?

Acho que a gente se perdeu, saca?

Tem um monte de debate, discussão, seminário… ‘Muito blá de fala’, dizia o Criolo. Enquanto a gente tá falando bonito, tem gente morrendo. Enquanto a gente tá batendo palma pra reflexões vazias sobre o óbvio, mais um jovem se perde entre vielas da favela do seu bairro.

Precisamos arregaçar as mangas.

Como um homo digitalis, óbvio, acredito no poder da web. Mas a beleza da internet está em nos fazer sair de casa com um propósito. É o aplicativo de mapas que te mostra como chegar, são os eventos no Facebook pra te dizer pra onde ir, são grupos e fóruns pra você se mobilizar.

A vida vai muito além da tela do computador. É clichê, mas é real. Estamos ficando um pé no saco com esse monte de blá e pouca ação.

Sobre o autor:


Wesley BrasilSou Wesley Brasil, artista gráfico, especializado em projetos de engajamento digital. Fundei o Site da Baixada em 2006, acreditando numa Baixada Fluminense melhor através do amor.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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