A favela é a crise existencial do Brasil

Foto: Renato Moura
Foto: Renato Moura

Todo mundo já viveu aquela fase de mudanças de comportamento depois de um período de reflexões profundas. Questões como ‘quem sou?’ e ‘o que eu tô fazendo aqui?’ são comuns em algum(ns) momento(s) da vida.

De fato, uma crise existencial pode ser revigorante. É uma oportunidade única para reavaliar os rumos da vida, refletir sobre o passado e planejar o futuro. Quem já viveu uma ou mais crises sabe o bem que isso pode fazer. Mas o grande lance é que o tempo passa diferente para as pessoas e ainda mais para um país.

Bateu.

Desde os Canudos ao Complexo do Alemão, nosso país teve inúmeras oportunidades para reavaliar sua importância em nível global. Um país preto da cara branca que poderia equalizar o acesso às riquezas se transformou numa máquina de repetir erros e praticar desigualdades.

Não quero chover no molhado. A gente sabe que “nosso país está em obras”, como o Emicida falou dia desses. O que eu gostaria é de propôr uma reflexão mais profunda sobre a favela e o que temos a aprender com ela.

Bateu ainda mais forte.

Cresci num favelão gigantesco mascarado chamado Baixada Fluminense. Sempre ouvi que era perigoso, mas ‘muito blá se fala’ e nunca tive medo de andar na rua. Uma coisa que toda favela tem é o senso de comunidade. De alguma maneira as pessoas cuidam uma das outras.

Rolezando (Do verbo “rolezar”, do latim “dar rolê) na Vila Operária (Duque de Caxias), um garotinho me falou que queria desenhar a favela na camisa dele. “Eu gosto da favela”, o melequento me disse. Coisa fofa. Já vi muita gente ter orgulho da favela. Eu tenho orgulho da minha Baixada. Não tô sozinho.

Quando juntamos esses pequenos relatos e reflexões sobre a favela, conseguimos entender um pouco melhor o que é o Brasil e o brasileiro.

Poderíamos ser um país muito melhor, sem bandeiras disso ou daquilo. Poderíamos construir uma sociedade mais justa onde a meritocracia tivesse a ver com a vontade de ir além, e não com a desigualdade do capitalismo. Se essa crise existencial chamada favela nos fizesse agir de verdade, teríamos um país muito melhor – disso não tenho a menor dúvida.

A boa notícia é que ainda dá tempo.

Sobre o autor:


Wesley BrasilSou Wesley Brasil, artista gráfico, especializado em projetos de engajamento digital. Fundei o Site da Baixada em 2006, acreditando numa Baixada Fluminense melhor através do amor.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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