Brasil, segunda porta à direita

Não é de hoje que a gente volta duas casas no Jogo da Vida
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Lembro quando o barbudo assumiu a presidência. A gente (separado, porque não sou James Bond) vinha de um governo que liberou frango a um real, passagem a um real, era tudo por um real. Lembra das lojas de um e noventa e nove? Era bom. O que tinha de brasileiro entrando na C&A pela primeira vez não tava no gibi. O arroz feijão farinha passou a ter muito frango – já falei que era um real?

Dois mil setecentos e cinquenta cruzeiros.

Mas aí o frango começou a subir de preço. A galera ficou boladaça porque experimentou o sabor do filet mignon e não poderia repetir o prato. Eu lembro de eu mesmo ter escolhido meu primeiro pedaço, com a maior pinta de sommelier de carne vermelha. Era no mercado mais legal da cidade. E agora?

Tiraram o moço da canabis e botaram o da pinga no poder. Mil maravilhas.

Aí a galera começou a comprar casa, comprar carro, andar de avião… C&A virou a nova Citycol (quem é do Rio tá ligado).  Eu comprei um tapete na Riachuelo, três sapatênis na Mr. Cat e experimentei minha primeira cerveja artesanal. Oito anos depois, a ideia de levar a primeira mulher à presidência se tornou tentadora. Todo mundo abraçou, mega coalisão, o Brasil inteiro unido, todo mundo do mesmo lado. A gente fica falando que o Brasil é conservador, mas na hora de eleger o ‘companheiro’, a galera toda se uniu: era o Brasil prafrentex falando alto. Era?

Geral, num braço só.

Só que tantos anos de novidades teriam um preço, né. “Tchau, querida” muitos disseram. E ela se foi. Agora a gente volta a ficar na mão de uma galera que não constrói o diálogo com a sociedade e prefere juntar meia dúzia de brancos numa sala climatizada pra assinar papel. Até o Faustão ficou virado no Jiraya.

O grande lance é que desde os tempos do Getúlio Vargas, o presidente que virou hospital e nome de avenida, o povo quer se proteger e defender seu bolso. Sempre foi assim. Não importa quem vai assumir, o que importa é defender o bolso. Não importa, pra massa brasileira, se isso vai ter um custo amanhã. Não importa se os direitos vão ser reduzidos, não importa se as mulheres serão maltratadas e os negros continuarem sob a imagem de estereótipos. Não importa se a gente vai continuar com o subúrbio cheio de gente com a pele esturricada. Não importa nem se o ramal Japeri vai ter pelo menos um maldito ar-condicionado pro seu José ter um pingo de dignidade pra voltar pra casa.

O que importa é o bolso.

E nessa de olhar pro bolso, até o Macaco Tião já ganhou eleição pra Prefeitura. Tá ruim? Bota outro no comando, não importa quem seja. Não importa que a situação econômica global esteja complicada. Os ricos continuam cada vez mais ricos e inclusive essas tais crises acontecem porque uma galera não aguenta pagar os juros – e pro bolso de quem você acha que vai esse dinheiro? O pobre cada vez fica mais pobre.

Bom xibom, xibom, bombom.

Esta coluna é de responsabilidade de seus atores e nenhuma opinião se refere à deste jornal.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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