Crônicas de Sérgio – 01

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Era por volta das 8 e pouco quando cheguei no bar do Zé Pindura. Na realidade não importa a hora que cheguei. O que importa mesmo é a hora que saí de lá… Pois pra dona da pensão lá em casa é assim: saiu do bar as dez; então tem 20 minutos pra subir o escadão e chegar em casa, senão logo pensa que estou de rabo de olho nas loiras do pego do engole.
Então não tinha muito tempo pra perder. Assim que cheguei no bar, logo fui pra mesa de dominó e cerveja com os amigos.
No bar do Zé Pindura é assim: você não precisa ter dinheiro e nem crédito, basta você ter nome!
Ter nome limpo, isso é o que precisa. No bar do Pindura não tem consulta a SPC e Serasa não, é o boca a boca que aprova ou reprova sua ficha. Seu fiador é a moral que você tem com a geral. Seu nome na boca do povo diz se você compra ou não compra… aqui começou meu problema….
Geral sempre me conheceu. Saiu de casa cedo, as 6 da manhã já estou no trem lotado pra mais um dia de venda no shopping (sim, o trem é meu shopping).
Volto pra casa só anoite ouvindo no meu celular a rádio falando que um sujeito foi visto saindo de um restaurante com uma mala que tinha 500 mil. Olho para meu bolso e tenho 500. 500 reais. Foi o que consegui nesses 15 dias. Mas tudo beleza, dá pra ajudar no aluguel, comprar o leite do menino e pagar o Pindura.
Subo as escadas, tomo aquela gelada no Pindura e sebo nas canelas pra casa.
Toda sexta chego junto com o Pindura para pagar as cervejas que tomei na semana…. Isso significa que tenho nome e crédito…. Melhor, tinha…
Pois é, quando cheguei e pedi minha gelada, Pindura gritou: anoto no nome de quem¿
Eu respondi: no meu negão. Sergio.
Foi aí que fiquei sabendo que o nome lindo que Dona Jurema me deu, estava na boca da geral.
Pindura retrucou: Sergio¿ Aquele que fez ponte aérea direto do país dos gringos, tomando champanhe pra comer quentinha em Bangu¿ Esse não tem crédito aqui comigo não……
É amigo, os vacilos que esse Sergio deu por aí está prejudicando minha vida por aqui….. nem crédito pra uma gelada tenho com o Pindura…

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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