Do Esqueleto à Vila Kennedy: cinco décadas de lutas e conquistas

A estátua foi uma encomenda a Bartholdi pela família Paranhos, em 1899, dez anos após a Proclamação da República do Brasil - Foto: Renato Moura/Jornal Voz Das Comunidades
A estátua foi uma encomenda a Bartholdi pela família Paranhos, em 1899, dez anos após a Proclamação da República do Brasil - Foto: Renato Moura/Jornal Voz Das Comunidades

Conheça a história da VK, uma das mais tradicionais comunidades do Rio

A década de 60 foi um marco importante na história das favelas, ainda mais quando se trata de remoções que aconteceram por todo o estado sob o regime político da época. Para entender melhor a história da Vila Kennedy, precisamos voltar um pouco no tempo. Lá no auge da ditadura militar, com a “Guerra Fria” fervilhando entre os blocos capitalistas e socialistas, o presidente americano na época, John Kennedy, lança o projeto “Aliança Para o Progresso”. A finalidade principal era financiar ações sociais em países da América Latina, para evitar o avanço comunista (o que já ocorria em Cuba, governada por Fidel Castro com o apoio total da antiga União Soviética, hoje Rússia).

Rio de Janeiro (RJ) 02/09/1966 - Logradouro - Vila Kennedy - autoridades observam a vila do alto. Foto Arquivo / Agência O Globo. Negativo : 41167
Rio de Janeiro (RJ) 02/09/1966 – Logradouro – Vila Kennedy – autoridades observam a vila do alto. Foto Arquivo / Agência O Globo. Negativo : 41167

O Brasil, então, fecha acordo com os Estados Unidos e passa a integrar a lista de países participantes do projeto. O governador do então Estado da Guanabara (hoje Rio de Janeiro), Carlos Lacerda, aplica o dinheiro repassado pelo Governo Federal na construção de bairros proletários que receberiam pessoas vindas de comunidades removidas. Nasce assim a Vila Kennedy, em 20 de março de 1964. Inicialmente seria chamada de Vila Progresso, porém, em homenagem ao presidente americano assassinado um ano antes, passou a se chamar Vila Kennedy.

O governador Carlos Lacerda resolve usar uma área localizada na Zona Oeste da cidade, região próxima ao distrito industrial de Bangu e à Zona Rural de Campo Grande. A ideia era remover as famílias da favela do Morro do Pasmado, em Botafogo, e do Esqueleto, no Maracanã. As justificativas das remoções eram de que o Morro do Pasmado fazia parte de um conjunto paisagístico da cidade (proximidade com o Pão de Açúcar) e que o Esqueleto, na verdade, seria uma ocupação da construção inacabada do Campus da então Universidade do Estado da Guanabara (UEG), hoje UERJ.

A comunidade é subdividida em diferentes áreas; Vila Progresso, Manilha, Light, Beira-Rio, Malvinas, Leão, Congo, Chatuba, Morrinho, Alto Kennedy, Cirp, Metral, Barrão, Pedra, Sociólogo Betinho e Quafá. Mas não foi sempre assim, como lembra dona Irene, 79 anos. “Não tinha Metral nem Malvinas, era só esse miolo aqui. Assisti a todas as obras, escolas Café Filho, Orestes Barbosa, até ficar como está hoje”.

A aposentada veio das remoções do Morro do Esqueleto, e é uma das moradoras mais antigas da localidade conhecida como Pedra. Foto: Renato Moura/Jornal Voz Das Comunidades
A aposentada veio das remoções do Morro do Esqueleto, e é uma das moradoras mais antigas da localidade conhecida como Pedra. Foto: Renato Moura/Jornal Voz Das Comunidades

A aposentada veio das remoções do Morro do Esqueleto, e é uma das moradoras mais antigas da localidade conhecida como Pedra. Mas se queixa das perspectivas que a região oferece. “Sinto falta de cursos para os jovens, para eles terem uma ocupação e uma profissão no futuro”, lamenta.

Estátua da Liberdade (Sim, nós também temos a nossa!) A Vila Kennedy possui uma famosa réplica da Estátua da Liberdade, esculpida por Frédéric Auguste Bartholdi, o mesmo autor do monumento original de Nova York. Atualmente está catalogada como única desse tamanho na América do Sul. E ainda há grande possibilidade de ter sido feita a partir da peça original.

 A estátua foi uma encomenda a Bartholdi pela família Paranhos, em 1899, dez anos após a Proclamação da República do Brasil. Em 2014 foi reformada pela primeira vez, após o processo de pacificação da comunidade, atendendo a uma antiga reivindicação dos moradores. A imagem, que continha trincas e fissuras, passou por uma análise detalhada de estrutura e de material.

Estátua da liberdade na Vila Kennedy - Foto: Renato Moura/Jornal Voz Das Comunidades
Estátua da liberdade na Vila Kennedy – Foto: Renato Moura/Jornal Voz Das Comunidades

Ao longo da restauração, foi revelado o verdadeiro material de confecção do monumento. Nos cadastros da prefeitura, constava como uma mistura de níquel e estanho; na verdade, foi feita em zinco, tornando-se a única do Rio com esse material. A outra descoberta foi na coroa do monumento, que apresenta uma parte em bronze, o que não era possível de perceber por ter sido pintada de cinza. A estátua está situada na Praça Miami e é um orgulho para comunidade.

PACIFICAÇÃO

Foi nessa praça que encontramos o motorista e pastor evangélico Carlos Alberto de Azevedo, 51 anos. Ele conta que optou por morar na Vila Kennedy por fazer parte de Bangu, mas lamenta a diferença na estrutura dos dois lugares. “Hoje a VK é uma comunidade isolada. Uma das reivindicações mais antigas é a de ter a mesma estrutura que já existe em Bangu. Então nós lutamos por uma agência de correios, por uma agência bancária aqui. Eu não sei o porquê dessa discriminação”.

Em 2014, a Vila Kennedy recebeu a sua primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Hoje já são sete em diferentes localidades como Alto Congo, Vila Progresso, Sapo, Metral, Pica Pau, Light e Alto Kennedy. Apesar da restauração da praça, e do desenvolvimento do comércio após o processo de pacificação, o pastor não vê muita diferença na comunidade após as UPPs: “Não mudou nada, as empresas que tem negócios aqui dentro enviam carros e caminhões com escoltas, mesmo se tratando de uma comunidade pacificada. Então eu pergunto: Que política de pacificação é essa? Se as pessoas de fora tem medo de investir aqui dentro, isso é uma incoerência. Sempre defendemos a pacificação, desde que viesse junto com o social, para ajudar a inserir o jovem no mercado de trabalho”, dispara.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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