Existe democracia nos estádios?

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Desde o dia 5 de Agosto de 2016, quando foi dado o pontapé inicial nos Jogos Olímpicos do Rio, uma dúvida pairava na mente de milhares de pessoas ao presenciar o lindo show na cerimônia de abertura da competição. Seria esse o nosso Rio de Janeiro? O mesmo Rio que vivemos diariamente no período pré-olímpico?

Com o inicio das partidas, a diferença gritante do público que normalmente frequenta nossos estádios e ginásios se evidenciou, e sem sombra de dúvidas ressaltou a elitização em meio aos torcedores. Esbanjando smartphones de última geração, e suas selfies numa tentativa de padronização de cultura europeia, pode-se ver o povo mais uma vez em minoria, como já havia acontecido na Copa do Mundo de 2014, e o verdadeiro dono do “Aha-Uhu, O Maraca é Nosso” cada vez mais longe de sua casa.

Para o carioca de 55 anos, Ricardo Timóteo, falta calor da torcida olímpica. Isto porque ele é flamenguista doente, morava em Realengo, Zona Oeste do Rio, e ia de trem sempre que o rubro-negro entrava em campo. “Eu ficava na geral, pagava um real, tinha direito nem a sentar senão perdia o lugar”, disse ele. “Agora a gente divide a visão com smartphones, cerveja cara e lugar marcado”, completou.

Ricardo não é o único a achar o público dos jogos de caráter elitizado. Rafael Rezende, jornalista de 23 anos e frequentador assíduo do Maracanã em jogos do Campeonato Brasileiro, esteve presente em alguns jogos nas Olimpíadas, e destacou a diferença que sente do público. “A gente não vê aquele torcedor de raiz aqui no estádio, aquele que vai cantar, que vai pular, que às vezes só veio com a passagem e o dinheiro do ingresso, aqui não tem isso”. Mesmo sentindo falta do espirito do subúrbio nos estádios e arenas, ele completou analisando a situação. “Eu acho que torcedor a gente tem que mesclar, tem que ter o cara refinado e tem que ter o povão”.

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Rafael Rezende, jornalista de 23 anos 

No ginásio do Maracanãzinho, no Parque Olímpico da Barra, em Deodoro e até mesmo no Engenhão, o público cheira a Prada e está sempre com o celular na mão. Oposta a essa realidade, é vida de muitos jovens que moram nas comunidades cariocas. Mesmo com todo o clima na cidade, muitos acabam mostrando certo desinteresse pela maior competição de esportes do mundo, por não terem a oportunidade de fazer parte desta grande festa pelo alto preço dos ingressos. Nathan Souza, de 19 anos e morador do Jacarézinho, gostou das modificações na cidade, mas confessa que não está por dentro da competição. “Ajuda bastante todas essas mudanças. BRT, metrô é tudo muito bom, mas sinceramente não estou acompanhando as partidas. Claro que eu gostaria de ver um jogo de futebol, fui criado no Maracanã, mas o ingresso é mais pra galera da Zona Sul, pra gente não dá não.” disse ele.

Mesmo com preços reduzidos em algumas modalidades, o esporte que é paixão nacional, o futebol, foi uma das modalidades com o ingressos mais caros nos jogos. Com a carga esgotada rapidamente nas partidas de maior destaque, em maior parte de brasileiros de maior poder aquisitivo e estrangeiros, a predominância da classe média alta era nítida em qualquer evento. Mas como todo bom carioca, multidões se agruparam nos eventos no Boulevard Olímpico para fazer a festa no melhor jeito brasileiro e confraternizar as vitórias em verde e amarelo.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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