Não nos deixam falar

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Dia 10 de maio de 2017. Ministra Rosa Weber, ao pronunciar um voto relativo a um julgamento, tem sua fala interrompida pelo ministro Luis Fux. Ministra e presidente do STF, Carmen Lucia, reativa o debate de que Supremo ela e a colega Rosa Weber quase não são interrompidas pelos colegas, mas isso decorre do fato de que elas quase não têm a palavra. E essa verdade se arrasta não apenas com mulheres aparteadas. Isso e explicito também na comunidade jurídica em um todo.

Uma pesquisa norte-americana, Justice, Interrupted: The Effect of Gender, Ideology and Seniority at Supreme Court Oral Arguments, revelou que na maioria das vezes em que há sustentações orais por mulheres, a interrupção é maior do que aquelas sofridas por homens. Um dado claro sobre como a questão de gênero ainda é intrínseca e preconceituosa em nosso meio; seja aqui no Brasil, seja nos Estados Unidos.

A representatividade feminina nos tribunais ainda é escassa. Na maioria dos ramos da justiça – federal, eleitoral, conselhos e tribunais superiores – a média da presença feminina não chega a 30%, conforme pesquisa realizada por Roberto Fragale Filho, Rafaela Selem Moreira e Ana Paula de O. Sciammarella para o artigo Magistratura e gênero: um olhar sobre as mulheres nas cúpulas do judiciário brasileiro. A pesquisa ainda cita que recente censo do poder judiciário, por sua vez, indica que, nas últimas três décadas, embora o número de mulheres que ingressam na carreira tenha aumentado em relação às décadas anteriores, elas não chegam, no quadro geral, à proporção de 40% em relação aos homens (CNJ, 2014). Temos que afirmar que é preocupante, uma vez que as mulheres são responsáveis por 53% do alunado dos cursos de Direito pelo Brasil. E a resposta para esse mal é o machismo impregnado no meio jurídico.

O que eu prego não é a instituição de cotas para o ingresso de mulheres, seja para os tribunais, seja para os conselhos superiores. Existem mulheres tão capacitadas quanto aos homens que lotam as vagas dos órgãos supracitados. Não há espaço para mulheres por uma questão estrutural. O machismo esta arraigado, e necessário se faz rebatê-lo de imediato. Um movimento na rede social Facebook começou a suscitar esse assunto, quando alguém criou um twiboon (mecanismo usado para colocar legendas na foto de perfil) com a frase: Pelo fim do machismo jurídico. Eu aderi. Pequenos movimentos como esse podem sim fazer toda a diferença. Pequenos atos com grandes vontades são determinantes para mudarmos o mundo.

Esta coluna é de responsabilidade de seus atores e nenhuma opinião se refere à deste jornal.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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