OPINIÃO: De marginal, só a poesia

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Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Sérgio Vaz, Emerson Alcalde, Mariana Felix, Ferréz. O que essas pessoas, de diferentes idades e lugares, têm em comum? A poesia. Ou melhor, a poesia marginal. Foi através dela que essas pessoas se tornaram referências para milhões de brasileiros.

Mas onde está essa poesia? Por que na escola eu só vejo Camões e Drummond? Por que nunca mandaram eu ler Flores de Alvenaria (Sérgio Vaz), Vício (Mariana Felix) ou Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (Carolina Maria de Jesus)? Eu senti essa falta durante o meu período escolar. A poesia clássica deve ser ensinada, sim. Porém em conjunto com autores periféricos para que a linguagem e temas abordados facilitem o aprendizado e o interesse dos alunos por essa arte.

Hoje, com o projeto Palavras do Mundo – meu livro -, eu levo para algumas escolas um pouco mais dessa cultura favelada. “E qual a importância disso?” A poesia tem o poder de mudar vidas e mostrar que há, sim, o caminho da arte para nós que saímos da favela. Com a poesia marginal esse caminho fica mais visível, pois o jovem passa a se enxergar naquilo que é falado pelo autor já que muitas vezes ele vive as mesmas situações ali contadas. Como consequência, aquele jovem passa a se sentir protagonista e capaz. Esse trabalho com a poesia marginal tem o poder de estimular o senso crítico, a visão dos alunos com o seu entorno, descobrir novos talentos e romper as difíceis barreiras de facções rivais, ocorrendo uma integração entre os alunos através da poesia.

As favelas historicamente carecem de cultura e educação. Crescemos vendo violência, desleixo, fazendo com que uma grande parte dos jovens se vêem entre dois caminhos: futebol ou crime. Há décadas o cenário vem sendo o mesmo e são raros os casos de vermos construções de bibliotecas, oficinas culturais ou qualquer projeto de desenvolvimento de talentos dentro da favela. Os projetos que estão atuando hoje – como o meu e os Ataques Poéticos dos Poetas Favelados, no Rio de Janeiro, o do Slam da Guilhermina e o Slam Intercolegial, realizados pelo Emerson Alcalde, em São Paulo – foram criados por poetas que vieram das favelas e que tentam mudar essa rotina e quebrar esse paradigma social. Há um universo de possibilidades para esses jovens e eles precisam saber disso. O ensino da poesia vai além de rimas e estrofes, é um trabalho social que vem salvando vidas e criando as referências de amanhã.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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