Colaboração: Melissa Cannabrava e Jonas Di Andrade

Na noite dessa última segunda-feira (18), faleceu o ex-vereador Jorge João Silva, aos 66 anos. Conhecido como Jorginho da SOS, Jorge deixou quatro filhos e a esposa, Rosângela, com quem vivia há mais de 40 anos. Flávia, Fernanda, Gabriel e Durval perderam o pai para a suspeita da Covid-19, doença que, a cada dia, faz mais vítimas em favelas cariocas, de acordo com o Painel de Atualização de Coronavírus nas Favelas do Rio de Janeiro criado pelo Voz das Comunidades.

Durante toda a sua trajetória de vida, a fake news sempre foi uma dor de cabeça para Jorginho. Era comum ouvir de vez em quando as pessoas comentando que o morador da Rua Euclides Farias, uma das mais conhecidas do bairro de Ramos, morava em uma cobertura da Barra. Uma vez ou outra a comunidade passava pelo susto: “Jorginho morreu?”. Por mais de duas vezes, Durval, um de seus filhos, foi obrigado a vir à público para afirmar que o pai estava muito bem e vivo. No dia 12 de maio, Durval desmentiu mais uma dessas notícias que, em tempos, já até foto de luto, rodava nos grupos dos moradores do Complexo do Alemão. Infelizmente, seis dias depois, foi confirmada pela direção do Hospital Estadual Getúlio Vargas, que está localizado na Penha, Zona Norte do Rio, a notícia do falecimento de Jorginho da SOS, que não resistir a uma parada cardíaca.

Jorginho foi vereador do Rio por três mandatos consecutivos, entre 2005 e 2016. Nas eleições de 2018, o ex-vereador candidatou-se ao cargo de deputado estadual pelo PRB, mas não foi eleito. Jorginho era figura muito conhecida e bastante querida por parte do Complexo do Alemão e adjacências. Atualmente estava comandando um espaço na entrada da Grota, onde trabalhava dando assistência aos moradores do Alemão. O ex-parlamentar também era um dos responsáveis pela administração do Cinema da Nova Brasília e da Nave do Conhecimento do Alemão, das quais considerava-se ‘zelador’.

A notícia de seu falecimento rapidamente repercutiu entre todos o moradores do Complexo do Alemão. Diversos depoimentos de carinho e gratidão foram feitos ao ex-político que foi o fundador da SOS Comunidades – um programa educacional que visa criar um elo de comunicação entre estudantes e instituições parceiras da rede particular de ensino, oferecendo oportunidade de bolsas de estudos com altos descontos, a fim de que muitos moradores periféricos pudessem ingressar em instituições particulares de ensino com mensalidades compatíveis com realidade socioeconômica deles.

Jorginho, antes da vida política, foi conselheiro tutelar e, posteriormente, presidente da associação de moradores da Grota durante os anos de 1990. Fez diversos programas de estudos destinado a jovens e adultos. “O primeiro localizado na entrada do Complexo do Alemão e o outro na Rua Paranhos, entre Ramos e Olaria, já com suas atenções voltadas à moradores dos bairros. Jorginho também realizava distribuições de cestas básicas e dava assistência às famílias com alguma situação delicada” disse Elbanizia Fragozo de Melo, conhecida como Nil, amiga de longa data de Jorginho.

“Sua luta por uma educação de igualdade nas favelas foi incansável, levantando a bandeira da educação num país que só faz desvalorizar o professor”, comentou Neila Marinho, amiga e ex funcionária e Jorginho.

Com diversos trabalhos direcionados à comunidade, Jorginho conquistou o carinho, respeito e admiração de muitas pessoas na Zona Norte. No entanto sempre tinha um ou outro com críticas mais duras. Mas, isso não impediu os inúmeros depoimentos em posts que relatavam o quanto o ex-vereador fez pela favela e por diversas pessoas que hoje têm uma profissão, a partir de cursos superiores, e agradecem ao Jorginho da SOS.

“Quando o Jorginho iniciou o mandato, em 2004, a ideia inicial dele era continuar o projeto de bolsas da Unisuam e fazer coisas para a comunidade mesmo e sempre com o olhar para a educação. O primeiro projeto que ele colocou na câmera após ser eleito vereador foi aparelhar o Conselho Tutelar. Na época a gente encontrava salas horríveis, sem a menor condição de trabalhar. Foi rejeitado pela câmara com a justificativa de que teria altos custos”, conta Sergio Fernando Bella, ex funcionário do Jorginho, que também comenta sobre as dificuldades de trabalhar na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.

“Ele passou praticamente todos os mandados alheio à Câmara. É uma briga difícil e injusta por conta da nossa origem, na verdade a nossa falta de preparo também, não podemos negar isso. Lá é um lugar de muita gente maliciosa. Jorginho sempre preferiu trabalhar fora. Nos empenhamos em ajudar a comunidade com as bolsas de estudos. Claro que a gente ajudava uma pessoa ou outra, mas preferimos focar em convênio mesmo, com faculdades e escolas”.

Alan Villela, conhecido como Bolinho, era morador da comunidade Grota e trabalhou sete anos com Jorginho, entre 1994 e 2004, no escritório da instituição SOS. “Foi muito bom trabalhar com ele. Vivia alegre e passava para os funcionários muita alegria. Eu nunca vi ele triste durante estes anos. Sempre se preocupava com funcionários e dava conselhos pra nós. Quando eu mais precisei, ele estava ao meu lado”.

O sepultamento de Jorge João Silva, o Jorginho da SOS, será amanhã no Cemitério de Inhaúma, às 10h15. Como é um caso de suspeita de coronavírus, não haverá velório.

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