Voz em verso #05: A noite é escura – Valentine

A quinta convidada é a Valentine, a primeira mulher trans a representar o Rio de Janeiro em um Slam nacional

Voz em verso #05: A noite é escura – Valentine

A pandemia do Covid-19 mudou o jeito de viver de toda a população e muitos costumes foram deixados de lado. Entretanto, a produção de arte segue a todo vapor nas favelas do Rio de Janeiro e, através da coluna Voz em verso, traremos poesias de artistas da favela aos domingos.

Na quinta semana, a convidada é a Valentine, a primeira mulher trans a representar o Rio de Janeiro em um Slam nacional, no Flup Slam Nacional 2019, sendo vice-campeã da competição. Além de poeta, Valentine é escritor, atriz, cantora e slammer. Ainda em 2019, ela participou da Batalha do Slam no Rock In Rio 2019. que ocorreu no Palco Favela.

A noite é escura
Perigosas são as ruas
E só quem tem a pele negra sabe da labuta
Da luta
De quem levantou cada monumento construção
Mas não tem parede
Nem teto e dorme no frio chão

Atumultuados quando trazidos
Exterminados pelo genocídio
A estrutura continua ainda hoje, fudendo os meninos
Que brincam de policia e bandido
Porque não deram a eles a oportunidade de sonhar com nada alem disso

É que tem muita coisa errada faz tempo
E certa mesmo agora é só a lei da gravidade
Que prova que tudo que sobe, desce
A bala que o defensor da pátria disparou pro alto
Vai voltar pro asfalto
Mas o estranho é que geralmente
É sempre o corpo preto que ta embaixo

E a mulher negra
Não mais escrava
Mas ainda vista como Anastácia
Nas costas segura
E carrega a dor
De ver mais um que veio de seu ventre indo parar dentro do saco
Preto
É a cor do desespero
Não por ser ruim
Mas por ser sempre o alvo do tiroteio

E eles nos dizem pra estudar
Eles nos dizem pra estudar
Eles nos dizem pra estudar
Mas até mesmo dentro das escolas eles conseguem nos matar

O banzo é pesado
O sistema tarado
No fetiche de ver negro torturado
Brinca de tortura com o que foi enquadrado
Injustamente enjaulado
O que constitui, na inconstitucionalidade da hipócrita constituição
Que diz que tortura é crime
Mas não dizia que a lei não vale pros negros encarcerados

E aah ‘Toma cuidado!’

É o conselho que o negro não escuta de sua mãe ao sair de casa
Por ser inocente acha que não acontece nada
Mas esquece ele que já já alguma coisa pode lhe ser implantada

INJUSTIÇA

Eu vi os manos no corre pra se levantar
Eu vi as minas batalhando pra se manter e se sustentar
Eles vêm aqui querer nos pesquisar
Pra das nossas dores numa mesa da acadêmia falar
Mas um dia na nossas peles eles não iam durar

Então pesquisador, agora me explica
Como que não se desconfia
Desse sistema de irrigação
Que irriga a lgbtfobia
Irriga o machismo e a misóginia
Irriga tudo isso
Com a agua benta
DO RA-CIS-MO

nel nome del padre,
del figlio,
dello spirito santo
(HIAHAHAHAHA)
Eles deveriam nos canonizar irmãos
Mas só não vão, porque nós não somos BRANCOS.

A noite é escura – Valentine

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