Texto: Rick Trindade
Foto: Nacho Doce/Reuters

Te convido a imaginar comigo: Temos dois concorrentes numa corrida, um está vinte passos atrás do outro. Quem você acha que tem mais chances de chegar primeiro? (E considerando que: o que está à frente tem a pista livre e o que está atrás tem uma série de obstáculos).

Em resumo, a meritocracia é a ideia de que os méritos pessoais (dedicação, esforço, competência) são suficientes para que um indivíduo obtenha ascensão social e profissional. A origem da palavra vem do latim meritum, que significa “mérito”, ligada ao sufixo grego cracía, que significa “poder”.  No entanto, no país em que vivemos, a meritocracia ignora algumas realidades como a desigualdade social e o racismo.

Educação, saúde, trabalho, lazer, segurança, entre outros, são os direitos sociais previstos no artigo 6º da Constituição Federal. E esses direitos precisam ser garantidos para que toda e qualquer pessoa tenha dignidade para viver. Entretanto, a desigualdade social assola esse país, impedindo que grande parte da população tenha acesso a esses direitos. A desigualdade social tem dois extremos: os muito ricos e os muito pobres. E essa diferença traz privilégios para o primeiro grupo social e limitações para o segundo.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) apontam que o número de pessoas vivendo em situação de pobreza aumentou consideravelmente entre 2016 e 2017. De acordo com a análise feita pela Síntese de Indicadores Sociais (SIS) havia no país, no ano de 2016, 52,8 milhões de pessoas em situação de pobreza, esse número aumentou para 54,8 milhões em 2017. Nesse mesmo período, a população na condição de pobreza extrema subiu em 13%, aumentando de 13,5 milhões para 15,3 milhões.

Numa outra pesquisa sobre a distribuição de renda no Brasil, O IBGE aponta que essa distribuição permaneceu desigual nos anos citados acima. Na média nacional, os mais ricos recebiam 17,6 vezes mais que os pobres. Para a parcela que representa os 10% dos brasileiros ricos, o rendimento médio mensal por pessoa chegou a R$ 6.629. Já para os 40%, que é a parcela mais pobre, o rendimento médio foi de R$ 376.

Qual sua resposta à pergunta feita no início deste artigo? Será que uma população pobre, que vive com um salário mínimo ou bem menos que isso, que precisa lidar com as mais diversas adversidades, como transporte público sem qualidade, educação precária e sem o devido investimento, condições de trabalho em sua maioria escassas e exaustivas, conseguiria crescer socialmente e profissionalmente apenas por mérito? Questões como oportunidade de uma educação de qualidade, acesso a uma biblioteca com livros diversos, oportunidade de aprender outra língua e poder se dedicar totalmente aos estudos não podem ser anuladas e não vistas como um algo a mais que contribuem para a ascensão de qualquer pessoa, sem falar nos inúmeros outros privilégios que algumas pessoas possuem.

Enquanto crianças de classe média alta em sua maioria tem vans ou carros próprios para os levarem para a escola, crianças pobres, ou de classe média vivem outra realidade no seu dia a dia. Ônibus cheios, necessidade de pegar mais de dois transportes públicos para ir e voltar da escola, e aquelas que moram nas favelas e seus colégios são relativamente perto, lidam com uma realidade cruel: tiroteios, que não marcam hora para acontecer.

Reprodução/Wikipedia

Recentemente surgiu no Youtube um anúncio de uma jovem branca de nome Bettina Rudolph, nele ela falava da sua conquista de ter acumulado mais de 1 milhão de reais em patrimônio. Ela afirma que conseguiu juntar todo esse dinheiro depois de comprar ações na bolsa de valores. Ainda na propaganda, a moça afirma que começou com pouco dinheiro, um valor em torno de R$ 1.520. Há dúvidas se realmente ela começou apenas com esse valor, e ainda que fosse verdade, dentro da realidade que vivemos, quantos de nós teríamos essa quantia livre para fazer um investimento? O vídeo de Bettina também mostra o quanto a meritocracia se ampara no racismo. Ainda de acordo com o IBGE, pretos e pardos são a maioria entre pobres, em 2017 eles representavam 75,2% das pessoas com os 10% menores rendimentos.

Em 2018 a ONG Observatório de favelas fez uma pesquisa no Rio de Janeiro e traçou o perfil de crianças e adolescente que são atraídas para o crime. Foi constatado que a maioria eram negros, do sexo masculino, de família numerosa e que a mulher (mãe) quem chefiava a família; que abandonaram a escola muito cedo e também tiveram experiências de trabalhos em situações precárias. É cruel concluir que esses jovens têm deixado os estudos, muito porque vivem experiências traumatizantes (racismo por exemplo) e também por se depararem com uma educação frágil que acaba não os atraindo. A maior parte deles trabalharam antes de entrar para o tráfico, mas se depararam com a precariedade desses mesmos trabalhos e com a falta de perspectiva de ascensão.  

Ainda que a realidade seja cruel e alguns jovens optem (de maneira imposta, claro) por abandonar os estudos ou só se adaptarem aos trabalhos exaustivos, existem outros jovens que enfrentam essa realidade e veem na universidade uma oportunidade para mudar de vida. Entre 2009 a 2016 o percentual de matrículas por cotas no ensino superior público cresceu de 1,5% para 5,2%, é o que a SIS mostra na análise educacional feita em 2018. As cotas surgiram como um incentivo e uma oportunidade para que negros, deficientes, indígenas e jovens de baixa renda pudessem ingressar numa universidade. Já que para muitos desses grupos, que vivem situações diversas, a universidade era vista como um lugar distante.

Mas ao que parece, o atual governo vem se empenhando muito em precarizar ainda mais o ensino nas universidades. Recentemente, o Ministério da Educação (MEC) anunciou um bloqueio de 30% do orçamento da verba das instituições federais. E isso afeta não só o funcionamento das mesmas, mas também a vida pessoal dos estudantes, já que para muitos, o ensino superior é uma das últimas alternativas para mudar de vida.

De um lado há pessoas que dispõe de atendimento médico particular, do outro, pessoas que dependem exclusivamente do SUS. Há quem tenha no máximo três refeições ao dia, enquanto outros, podem escolher o que vão comer e podem fazer quantas refeições quiserem. De um lado, há quem não só receba apoio financeiro da família, mas que também tem uma rede de contatos a sua disposição, para ajudá-los em suas futuras profissões, enquanto do outro, há quem precise abrir mão de sonhos para poder contribuir com as despesas de casa. Acreditar que qualquer pessoa pode alcançar lugares e mudar a própria realidade apenas por mérito, desconsiderando as mazelas do nosso país, é uma crueldade, é fechar os olhos e contribuir com a desigualdade social e com o racismo.

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