Sim, Rio, você me deve até a sua alma

Sua elite branca só quis me sabotar, então precisamos trocar uma ideia séria sobre isso

Conheci o Centro do Rio aos 15 anos de idade. Foi uma tarde incrível, onde vi obras de arte de grandes artistas pela primeira vez. Como a maioria dos moleques criados na Baixada Fluminense, não fazia ideia que existia algo além da Avenida Brasil.

Quando eu e minha turminha começamos a usar o tal “passe livre” nos ônibus, resolveram arrancar isso da gente. Anos 2000, sem essa de Facebook: juntamos mais outros 3 mil revoltados e fomos pra rua sem precisar de campanha de publicidade pra isso, fechamos o trânsito, invadimos a Dutra. Foi a primeira vez que fecharam a Dutra. Pela primeira vez vi a mão pesada do Estado batendo nos meus amigos com fuzis.
Sem nenhum talento com provas, sem acesso às aulas que os branquinhos da Sul tiveram, sem metade das aulas de física por falta de professor, a derrota no vestibular era garantida. O babaca aqui sonhava fazer jornalismo na UERJ. Cota pra preto e pobre era novidade. Cheguei a tentar aulas num colégio particular com bolsa, mas já na primeira aula lembro de ter ouvido exatamente essas palavras: “ele é diferente, fica olhando em volta, parece que vai roubar as pessoas”. Nunca mais voltei.
A essa altura, a opção era trabalhar. Descobri Copacabana aos 17 anos. Emprego merda, pagando mixaria, em troca de aprendizado. Levei anos pra construir uma carreira. No meio do caminho, um bocado de humilhação por morar (muito) longe, por ser o mais novo, por não saber falar bonito. Nunca esqueci de algumas dessas humilhações.
Hoje, aos 30 anos, olho pra trás e vejo como a sociedade criou barreiras pra eu ter acesso às coisas. Aí você vem me dizer que o pobre tem a mesma condição de uma pessoa com grana pra ter as coisas e só precisa “se esforçar um pouquinho mais”?
VOCÊ ME DEVE ATÉ A SUA ALMA.
 
Quem fala isso não sabe o que é andar em ônibus, metrô e trem lotado no horário de rush. Não sabe nem a metade do que a gente passa aqui na Baixada pra arrumar emprego.
Quando eu quis conhecer o Rio, tentaram cortar meu acesso ao ônibus. Quando eu quis um emprego, jogaram minha moral lá embaixo. Entendo perfeitamente que o Rio tem uma dívida comigo e com os meus. Sei que não sou o único que passou aperto na vida, mas se eu posso escrever sobre isso e mostrar pras pessoas como o Rio segrega a Baixada, então é isso que vou fazer.
Se eu, que tenho uma mente aberta, sinto tanta revolta da capital quando penso no caminho que trilhei, me pergunto quanta revolta tem na molecada que só quer curtir uma praia mas toma porrada de playboy. Fico me perguntando o que se passa na mente de um garoto que tem que escutar calado um branco dizer “ah, mas se o garoto sai de casa sem dinheiro, só pode sair pra roubar”. Cansei de sair de casa sem dinheiro, só pra dar um rolê diferente, mas nem por isso saí pra roubar alguém.
Se você, leitor, discorda do que digo e acha que todos temos direitos iguais, peço que você por favor não leia nunca mais o que eu escrevo. VIVEMOS NUMA SOCIEDADE DESIGUAL SIM E VOCÊ NÃO TÁ ENTENDENDO O QUE ESSA DESIGUALDADE SIGNIFICA E A URGÊNCIA QUE ISSO TEM!
Escutou? É urgente! Estamos fabricando revolta em cima de revolta e tratando isso à base de porrada!
Mas e aí? Como é que a gente faz? Tento imaginar que conseguirei ver o fim do abismo gigante entre a Baixada e o Rio, mas a cada linha de ônibus eliminada e a cada verba destinada pra capital ao invés da Baixada, perco minha esperança.
Precisamos trabalhar pelas crianças. Quando a minha ficha caiu, voltei pro CIEP onde estudei e compartilhei com alguns alunos meu aprendizado. Uma oficina de jornal onde a gente discutia a sociedade. Peço que você, leitor, faça o mesmo.
Saia do computador e vá pra uma sala de aula – não pra escutar um branco teórico falando na faculdade, mas pra dividir com as crianças de uma escola pública aquilo que você sabe.
Quem sabe até conseguimos uma sociedade melhor ainda nesse século, né?

Sobre o autor:


Wesley BrasilSou Wesley Brasil, artista gráfico, especializado em projetos de engajamento digital. Fundei o Site da Baixada em 2006, acreditando numa Baixada Fluminense melhor através do amor.

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