#Opinião: Agrotóxicos e o futuro

Apenas em Julho, o governo autorizou o uso de mais 59 agrotóxicos nas lavouras brasileiras, totalizando 290 novas substâncias permitidas apenas neste ano. Ao todo, 2356 produtos agrodefensivos podem ser

#Opinião: Agrotóxicos e o futuro

Apenas em Julho, o governo autorizou o uso de mais 59 agrotóxicos nas lavouras brasileiras, totalizando 290 novas substâncias permitidas apenas neste ano. Ao todo, 2356 produtos agrodefensivos podem ser comercializados em todo o país.

Chamados de agroquímicos, defensivos agrícolas, pesticidas, e com diferentes classificações de acordo com seus alvos (fungicidas para fungos, herbicidas para ervas daninhas, e etc), os agrotóxicos são substâncias químicas que protegem as lavouras de pragas. Dentre o que é considerado praga, podem estar insetos, roedores, fungos e demais microorganismos que se alimentam ou causam doenças nas plantas. 

De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, os agrotóxicos são produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, utilizados nos setores de produção, armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, pastagens, proteção de florestas, nativas ou plantadas, e de outros ecossistemas e de ambientes urbanos, hídricos e industriais.

Visa alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos. Também são considerados agrotóxicos as substâncias e produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento.

Apesar de terem um papel importante dentro do modelo de produção do agronegócio, os agrotóxicos são alvo de diversas polêmicas e controvérsias, pois possuem muitos efeitos colaterais perigosos, podendo poluir a água e o ar, causar danos ao solo e aos seres vivos.

Os agrotóxicos são compostos por substâncias cujo objetivo é matar os seres considerados como pragas, debilitando ou paralisando suas funções vitais. Contudo, muitas vezes outros seres vivos, que não são alvos do controle de pragas, entram em contato com os agrotóxicos e acabam sofrendo os mesmo efeitos, ou efeitos tão ruins quanto. 

Os insetos mais afetados são aqueles que entram em contato direto com as plantas, como as abelhas e os demais polinizadores, que não se alimentam das folhas, mas buscam o pólen dentro da planta. As abelhas cumprem a importante função na reprodução e fertilização das plantas, ao carregar o pólen de uma flor a outra.

Algumas espécies de abelhas são importantes para a economia, sendo cultivadas para a produção de mel. Milhões de abelhas tem sido encontradas mortas próximo a plantações em que se utilizam agrotóxicos. No Brasil, não há uma base de dados oficiais que correlacionem as duas coisas, porém, após o alerta de apicultores que encontraram colmeias inteiras mortas, uma autópsia encontrou vários tipos de agrotóxico dentro desses insetos. 

Além disso, os agrotóxicos podem chegar ao hábitat de animais que vivem longe das lavouras. As chuvas podem lavar os agrotóxicos aplicados nas plantas, infiltrando-se no solo com ele, ou então carregando as partículas de agrotóxicos para os rios, lagos e mares, contaminando o ambiente aquático e expondo aos riscos os animais que vivem nos rios e lagos, e também aqueles que bebem dos corpos d’água. 

Os agrotóxicos podem, inclusive, chegar às cidades e aos seres humanos por meio do sistema de abastecimento de água: resíduos de agrotóxicos foram encontrados na água de 20% das cidades brasileiras. Amostras de água de algumas cidades do país foram testadas para a presença dos 27 agrotóxicos mais utilizados.

Algumas amostras continham todos os 27, outras, continham menos. Além disso, algumas das substâncias testadas estavam presentes na água em quantidade maior do que o limite seguro permitido nas normas brasileiras.

Os agrotóxicos também estão no ar: a pulverização, método de aplicação de agrotóxicos em grandes lavouras que utiliza aviões, facilita a dispersão das partículas na atmosfera. Como se não fosse suficiente, os agrotóxicos também chegam na mesa de casa: resíduos dos produtos são encontrados em verduras, legumes e frutas, por isso, é essencial que eles sejam bem lavados antes de serem consumidos.

Grande parte dos agrotóxicos é empregado nas lavouras de monocultura de grãos e cereais, como soja, arroz e milho. Estes cereais vão para o mercado externo e para a produção de ração animal para o gado, mas também são matéria prima para uma série de alimentos industrializados, sobretudo os derivados de milho, as massas e congelados. Nesse tipo de produto, também é comum encontrar como ingredientes os cereais transgênicos.

Para minimizar os efeitos colaterais citados acima, a Anvisa e o Ibama estão impondo algumas restrições à aplicação de agrotóxicos, sobretudo aqueles que causam impacto negativo nos insetos polinizadores. As regras estão relacionadas à distância de aplicação, tipo e quantidade de produto, frequência e período de aplicação.

Os órgãos governamentais também pretendem avaliar melhor os impactos dos agrotóxicos nas abelhas, pois não há contagem e dados oficiais, e também realizar análises de resíduos de agrotóxicos nos alimentos que vão para a mesa dos brasileiros. 

Além disso,  a liberação do glifosato, um dos ingredientes ativos encontrados em algumas marcas de agrotóxicos, está sendo reavaliada. O ingrediente já é liberado no país, e está em jogo se ele segue sendo permitido ou se deve ser banido, tendo em vista que ele já foi banido em outros países por estar associado a casos de câncer em trabalhadores que aplicam o glifosato nas lavouras.

Porém, a própria Anvisa adotou um novo protocolo de classificação de agrotóxicos que passa a considerar apenas o risco de morte de seres humanos por ingestão ou inalação do produto. Os perigos relacionados ao contato com a pele e olhos, irritação, reações alérgicas, queimaduras, e exposição prolongada, por exemplo não são mais suficientes para colocar um agrotóxico na categoria mais perigosa. Na prática, 500 muitas substâncias dessa categoria agora vão passar a ocupar categorias mais leves: cerca de 500 produtos vão sair da categoria de extremo perigo. 

As novas categorias são: extremamente tóxica (pode levar à morte se ingerido ou inalado), altamente tóxica, moderadamente tóxica, pouco tóxica, improvável de causar dano agudo e não classificada. Os testes de irritação dos olhos e da pele eram usados como critério de avaliação e colocavam as substâncias como extremamente tóxicas.

Com a nova classificação, os testes não tem mais influência e os produtos que causam irritação devem vir apenas com um aviso na embalagem, para alertar aos trabalhadores que aplicam os agrotóxicos nas plantações. 

Apesar de todas as recomendações dos fabricantes dos agrotóxicos e das agências reguladoras, nem sempre a realidade corresponde às expectativas. É difícil dizer se as restrições, estudos e fiscalização das agências reguladoras serão suficientes para balancear os impactos negativos causados pelos agrotóxicos, sobretudo num cenário de crescente liberação, venda e uso de novas substâncias.  O aumento na utilização desses produtos indica um consequente aumento dos impactos negativos que eles provocam: mais poluição do meio ambiente, mais animais afetados pelos efeitos nocivos e mais agrotóxicos na mesa. 

É importante ressaltar que os agrotóxicos não são a única alternativa para garantir uma alta produção de alimentos. A questão reside em adotar modelos mais eficientes e menos danosos ao meio ambiente do que aquele atualmente praticado no agronegócio. Para deixar de usar os agrotóxicos, é preciso repensar o tipo de lavouras usadas e a destinação desses produtos, e, infelizmente, a qualidade da produção de alimentos fica em segundo plano porque a quantidade é o que garante o lucro.

Porque precisamos uniformizar a variedade de milho e soja, com grãos todos iguais e polidos, ultra resistentes, porém que cresceram com veneno? Será mesmo que só dá pra alimentar a população mundial dando a mesma comida pra todo mundo? 

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, no Brasil, a agricultura familiar é responsável por 69,9% do feijão nacional, 34% do arroz, 87% da mandioca, 46% do milho, 38% do café e 21% do trigo. O setor também é responsável por 60% da produção de leite e por 59% do rebanho suíno, 50% das aves e 30% dos bovinos, são os dados do último censo rural.

As terras ocupadas pela agricultura familiar correspondem a 84% dos estabelecimentos rurais, ainda segundo os mesmos dados. Mesmo que parte desses produtos não seja orgânico e que exista um “incentivo” por parte dos fabricantes para que os agricultores usem agrotóxicos em suas lavouras, esse tipo de estabelecimento é muito importante, pois costuma adotar práticas mais sustentáveis com relação ao solo e ao meio ambiente

Quando se defende os agrotóxicos associando-os à alta produtividade e eficiência na produção de alimentos, na realidade se está falando da exportação dos produtos agrícolas para o mercado externo, produção de ração animal (que serão abatidos para o consumo) e produção de ingredientes para os alimentos industrializados.

Isso se reflete no fato de que quase metade da área rural do país é ocupada por menos de 1% dos estabelecimentos agrícolas: as grandes fazendas do agronegócio ocupam uma extensa área, mesmo sendo o tipo de estabelecimento menos abundante. 

Dia 25 de julho é comemorado o dia do trabalhador e trabalhadora rural no Brasil. Os pequenos produtores que ainda usam agrotóxicos tem maiores chances de se adaptarem a métodos de cultivo que causam menos danos ao meio ambiente, como o cultivo orgânico, a permacultura e agrofloresta.

Ao utilizar esses métodos, os alimentos tem o potencial de se tornarem mais saudáveis e nutritivos, além de despertar nos consumidores uma maior consciência com relação à sua segurança e autonomia alimentar, fazendo com que eles passem a considerar fatores como sazonalidade e procedência dos alimentos ao planejar suas compras e suas refeições.

Deixe comentário