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A democracia não pode perder os seus adeptos: o povo

Foto: Reprodução
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O poder emana do povo! Esse é o sentido da junção de duas palavras gregas “demos”, povo, e “kracia”, poder, domínio. Levando isso em consideração, podemos supor que quem é contra a democracia, é contra ou teme a força do povo.

Como representante do povo preto, da favela, empobrecido, mas também enquanto cidadão, jornalista, ativista e influenciador (por produzir pensamentos e conteúdos nas redes sociais), fui convidado para uma reunião com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e a primeira dama, Janja, em Brasília. Os assuntos não podiam ter sido outros: participação social, comunicação e a reconstrução de um país mais democratico. Coincidência ou não, mas eu creio que não, caiu na data do dia 8 de fevereiro, um mês depois da tentativa de golpe de estado executada por bolsonaristas e financiado por empresários de extrema-direita. Prestem atenção!

Assim que cheguei ao Palácio do Planalto, após conversar com outros comunicadores como eu, subi de elevador para observar os vestígios deixados pelos marginais, terroristas, que quebraram vidros e danificaram quadros, como a obra de Di Cavalcanti, ”As mulatas”, que fica no Salão Nobre. Neste tempo, deparei-me, bastante feliz e emocionado, com uma das profissionais que trabalham na limpeza de lá que reconheci por ter aparecido num vídeo publicado nas redes da Janja sobre o que aconteceu no Palácio. Minha reação primeira e rápida foi abraçá-la, depois dizer o quanto aquele vídeo tocou a mim e que o trabalho dela era muito importante, porque representa muitas mulheres de luta, como minha avó. Ela logo soltou um sorriso contagiante e disse que tinham mais duas que participaram também. Perguntei onde estavam, e logo as avistei também para abraçar.  

Conversamos por mais ou menos cinco minutos, que passaram voando. Brinquei que estavam famosas nas redes sociais, que muita gente tinha visto, expliquei o motivo de eu estar ali e, ao final, ressaltei que tinha ficado feliz por encontrá-las, porque elas sim representam o povo verdadeiramente, e não aqueles e aquelas que vandalizaram tudo em nome de uma farsa que é o lema “Deus”, Pátria e “família” e “liberdade”, de origem fascista. Com carinho e afeto, me despedi e fui para a sala onde aconteceu a reunião.Esse momento foi um dos que mais me marcaram naquele dia. Porque conhecer aquelas mulheres me fez lembrar não só de onde eu venho, da minha família, mas também do motivo real de eu estar naquele espaço.

É urgente que a comunicação do governo Lula repare os erros do passado, sobretudo em relação às bases. Durante a fala da Janja, inclusive, foi destacada essa questão, pois cada influenciador, artista, ali presente, comunica de uma forma que o governo não consegue reproduzir. O Brasil sempre teve esse desafio, visto que é diverso. Quem se comunica da favela para a favela, por exemplo, sabe como atingir essa parcela da população. Então, por que não caminharmos juntos? Por que não falarmos de política sem todos aqueles termos difíceis? Quer queiram quer não, tudo é política. Desde ir comprar pão, resolver a ausência de saneamento básico, até reivindicar direitos civis nas ruas, quem resolve as mazelas sociais que nos atingem é a política. Por isso, a nossa presença ali foi necessária. Como disse Lula, não é só dever da gestão atual combater o fascimo à brasileira, e sim de todos os brasileiros que defendem a democracia. Por mais que 49,10% da população tenha votado nele, não são todos que defendem de fato ideias antidemocráticas ou apoiam o que foi feito no Palácio do Planalto. Portanto, é necessário que essas pessoas tomem consciência das consequências que o governo anterior, de Bolsonaro, causou, do retrocesso que trouxe para o país em vários seguimentos da sociedade, dos privilégios que mantiveram para sua classe, a fim de que não se repita. 

Não dá mais para voltar às políticas coloniais, escravocratas, do passado, tampouco manter estruturas modernas que agravam ainda mais a desigualdade social no país. O povo preto, indígena, LGBTQIA+, mulheres, PCDs e mais vulneráveis socialmente existem, devem ser respeitados enquanto seres humanos e seus direitos precisam ser garantidos. E é exatamente isso que nos diferencia deles. O Brasil que eles querem não inclui essa população, pelo contrário, negam tudo, até mesmo a humanidade.

Esta frase da escritora Carolina Maria de Jesus é um retrato escrito do Brasil de quatro anos atrás. “A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso país, tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos, fraquíssimos. E tudo o que está fraco, morre um dia.” Felizmente o Brasil segue vivo e reconstruindo tudo que tentaram destruir. O povo conseguiu mostrar através do voto que o poder emana deles e ninguém é capaz de mudar isso novamente.

Golpe de estado: derrubada de um governo constitucionalmente legítimo por um grupo político, militares ou ditador

Jonas di Andrade
Ativista social, membro do coletivo Aliança Antirracista, professor de português, literatura e redação pela UFRJ, educador popular, escritor, revisor e assistente de jornalismo do Voz das Comunidades

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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