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Rapper indígena cria da Maré, Kaê Guajajara critica o apagamento dos povos originários na cultura brasileira

Artista faz da música uma ferramenta crucial para defender narrativas de povos indígenas
Cantora do povo Guajajara cria contra narrativas com a música. Scarlett Rocha / Divulgação
Cantora do povo Guajajara cria contra narrativas com a música. (Foto: Scarlett Rocha / Divulgação)

Favelas e aldeias são territórios indígenas. Nesses espaços, é comum ver nomes oriundos dos povos originários e comportamentos culturais semelhantes, como a união nas celebrações e comemorações. Nesse Dia dos Povos Originários, conversamos com Kaê Guajajara que é cantora, compositora e ativista, que falou sobre a importância da favela se unir assim como as aldeias.

Nascida em Maranhão, Kaê veio para o Rio de Janeiro ainda criança, tendo morado até recentemente na Vila dos Pinheiros no Conjunto de favelas da Maré. Prestes a lançar seu novo álbum Zahitata no próximo dia 21, ela conta que a inspiração veio do incômodo de ver a sociedade querendo ver apenas narrativas sofridas. “A gente fala muito das nossas dores, nossa sobrevivência, e pouco se fala da nossa vivência, beleza, celebração da vida que se supera a cada instante desde 1500. Queremos amar, viver e rir pra além da dor que a colonização nos trouxe.” conta.

A data de escolha para lançamento do álbum não foi por acaso. No abril indígena, ela quis chocar as pessoas que dizem que o Brasil foi descoberto no ano de 1500 e valorizar a cultura da sua comunidade. A cantora diz que é importante ter união e inclusão e acrescenta que é importante olhar para a cultura que inclua produções sobre a temática indígena.

Kaê cantando no prêmio Arcanjo. Foto: Annelize Tozetto / Divulgação

A música como flecha de contra narrativa

“A música é flecha no nosso arco”, explica Kaê, e acrescenta que a usam para tocar pessoas, mostrar pontos de vista, defender a narrativa dos povos originários que vivem tanto nas comunidades indígenas quanto nas favelas e lutam por direitos, respeito e dignidade em todos os lugares.

A cantora também é fundadora do Coletivo Azuruhu, um selo artístico formado por artistas de etnias indígenas que criam histórias opostas às criadas pela sociedade, a partir das suas experiências, vivências e denunciando o apagamento dos povos originários. Kaê também é autora do livro “Descomplicando com Kaê Guajajara – O que você precisa saber sobre os povos originários e como ajudar na luta antirracista”.

A melhor forma de entender o dia dos povos indígenas segundo Kaê, é com uma mudança radical do que o dia significa. “Parar de fantasiar as crianças, parar de contar histórias de que indígenas são ‘índios’ e viviam no passado ou que se estão vivos hoje é bem distante apenas na floresta e não fazem parte da sociedade”, e convida pessoas indígenas para pensar em novas formas de educar as crianças e a população baseando no respeito.

“Não tem cabimento um país com uma das maiores diversidades culturais e étnicas do mundo não valorizar, respeitar e ter um modelo de educação que conscientize as pessoas quanto a isso.”

Kaê Guajajara
Cantora, escritora e ativista, lança novo álbum sexta (21). Foto: Tayná sampaio / Divulgação

Reparação histórica

O Dia dos Povos Indígenas, foi estabelecido no ano passado, a partir da Lei 14.402 de 8 de julho de 2022, de autoria da, atual presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joenia Wapichana. Na época, Deputada Federal (Rede).

Antes, era comemorado o “dia do índio”. Mas com a nova lei, ocorreu a substituição na nomenclatura, carregada de estereótipo, com uma visão racista que relaciona os povos originários ao atraso e selvageria. A lei chegou a ser vetada um mês antes de ser outorgada pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL), mas em junho do ano passado foi assinada e passou a substituir a nº 5.540, de 2 de junho de 1943, criada no governo de Getúlio Vargas.

A mudança do nome traz também um reinvindicação para ter mais atenção. Povos indígenas significa, literalmente, aquele que está ali antes dos outros, destacando que são os povos originários do Brasil. Na mídia, era comum representações dos povos originários de formas pejorativas, expressando a pessoa indígena como alguém sem acesso a tecnologia e educação, condições que refletiam o descaso na promoção de acesso aos direitos básicos. E mudar esse retrato é uma das lutas que marcam o dia 19 de abril, o Dia dos Povos Indígenas.

Conheça o trabalho da artista Kaê Guajajara

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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