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Rock in Rio: Adquirindo recursos, MD Chefe e DomLaike mostram o que é ser um favelado chique

A dupla, cria do Morro do Fallet-Fogueteiro, se apresenta no Espaço Favela, um dos palcos do festival, dia 9 de setembro
Foto: Guilherme Oliveira / Voz das Comunidades
Foto: Guilherme Oliveira / Voz das Comunidades

Os favelados mais chiques do Rio de Janeiro irão se apresentar no Rock in Rio dia 9 de setembro no Espaço Favela. Leonardo Barreto, de 15 anos (se ele disser isso, não acreditem, é 22 mesmo), e Jefersson Vianna, de idade não revelada (o mistério faz parte da estética), são crias do Morro do Fallet-Fogueteiro, localizado na Zona Central da cidade. O primeiro é mais conhecido como MD Chefe, o “tchuco” da voz grave, que tem mais de 1 milhão e meio de ouvintes mensais no Spotify. O segundo é o DomLaike, famoso “trajadão” da voz de anjo, que, por sua vez, tem mais de 1 milhão e 200 ouvintes mensais na mesma plataforma. 

Os trappers, que se consideram irmãos, se conhecem há cerca de seis anos e estouraram com a faixa “Rei Lacoste”, lançada em 2021. Até o momento, o clipe tem mais de 77 milhões de visualizações no YouTube. Foi nessa que o Brasil conheceu a “moda casual de luxo” da dupla que faz parte da gravadora independente Offlei Sounds, localizada no Fallet, de onde, mesmo com todo o sucesso que estão alcançando, não pretendem sair. 

A lógica é simples: adquirir recursos e deixar um legado. “A gente tem que tirar da cabeça das pessoas a ideia de ‘eu venci, então vou sair da favela’. Tem como vencer aqui dentro. O Estado já abandona, aí eu faço dinheiro e saio daqui? Vou estar fazendo a mesma coisa que o Estado e sendo hipócrita quando falar que o Estado está abandonando a favela, porque quando fiz dinheiro, eu abandonei também”, exemplifica DomLaike. 

“Estava conversando sobre o quão é incomum para as pessoas verem a prosperidade da favela. Não gosto muito de usar a palavra prosperidade porque já está banalizada, sempre relacionada ao dinheiro, mas, vamos usá-la quase dessa forma. É incomum olharem para a favela e esperarem uma mansão, a casa de R$ 1 milhão, um carrão…”, reflete MD Chefe. Em seguida, ele ainda acrescenta: “Então, a gente quer justamente mostrar que essa parada é maluquice. Porque não querem ver essa prosperidade. Mas ninguém reclama disso no sertanejo ou qualquer outro estilo musical. Diferente do rap ou funk.”

Ambos falam sobre adquirir recursos para cumprir outros objetivos. Sem abrir o jogo todo, comentam que o verdadeiro propósito é a bênção na vida das pessoas. Além disso, falam sobre dar visibilidade e apoio ao basquete, que agrega na cultura negra e na cultura do rap.

Os dois têm diversas colaborações musicais de sucesso, além da “Rei Lacoste”. “Favelado Chique 2”, com 2T e Rare G, é outra. “RIO SUL”, com MC Cabelinho, mais uma. Até com Marília Mendonça e Péricles, “A Mais Disputada”, produzida pelo Papatinho. Essa última patrocinada pela Casas Bahia, uma das maiores redes de varejo do Brasil. Mas, a lista de singles com a presença da dupla não é só isso. Só que aí vale abrir o Spotify ou o Youtube para conferir, né?!”

Sobre a expectativa de serem o headline do Espaço Favela do Rock in Rio na próxima sexta-feira (10), eles argumentam que esse é só mais um passo do trabalho que fazem, ou melhor, a consequência. Quanto ao que esperar do show? “Deixa eles esperando, na hora vão ver”, foi a resposta. O jeito vai ser aguardar mesmo!

“Rei Lacoste – MD Chefe ft. DomLaike”

MD Chefe

Cria do Turano, para além do Fallet, MD participou de sua primeira batalha de rima dos 13 para os 14 anos, na Roda Cultural do Rio Comprido. E ganhou. E nunca mais parou de ganhar, eles contam. Chegaram a pedir para o cara parar de batalhar, vê se pode? Inventaram de colocar o então Madruguinha, como era conhecido, para ser mestre de cerimônia. O vulgo da época pegou por conta do chapéu de modelo bucket que ele estava usando em uma das batalhas, igual ao do Seu Madruga, do Chaves.

Uma curiosidade sobre o artista é que o seu processo criativo não consiste em escrever. É tudo freestyle. “Tem dois tipos. O que eu faço para a rima mesmo e o outro que eu monto um campinho de futebol na cabeça; o gol, a linha e tal, que é o que eu nunca vou esquecer. Eu tenho esse domínio da minha memória”, explica. MD disse ainda que no início já tentou fazer da forma tradicional, que é anotando, mas que não funcionou para ele. 

“Mas o que eu não quiser guardar no meu backup de memória eu não guardo não. Se eu achar necessário, eu guardo. Até porque tenho déficit”, ressalta, depois que DomLaike zoou dizendo que pessoas de memória muito boa guardam muita mágoa. 

Esse ano, MD Chefe trouxe para o Brasil, pela primeira vez, um BET Awards. Ele ganhou o prêmio de Artista Revelação Internacional. Para quem não sabe, BET Awards é uma premiação que foi criada em 2001 pela Black Entertainment Television com o objetivo de premiar artistas negros da música, atuação, esporte e outras áreas do entretenimento.

Clipe de “Tiffany”, um dos sucessos de MD Chefe

DomLaike

Cria da Coroa e da Mineira, para além do Fallet, o primeiro contato musical que DomLaike teve foi com o funk, que era uma cena muito forte no bairro do Rio Comprido e redondezas, segundo ele. Mas conta também que sempre foi muito ligado ao rap da gringa, como 50 Cent e Lil Wayne. Ou seja, Video Traxx anos 2000. Quem viveu, viveu! “Chegava no camelô, pagava dez conto e ia para casa com 35 clipes”, relembra, rindo.

E, de onde vem o vulgo? DomLaike é um autodidata da música. Começou a produzir aos 16 anos. Então, o “Dom” vem justamente do dom que o artista tem em aprender as coisas sozinho, já o “Laike” é o abrasileiramento da palavra inglesa “like”, que em tradução livre significa “gostar”. Ele explica que é porque nunca teve desafeto com ninguém: “Sempre me dei bem com as pessoas. Não sou amigo de todo mundo, mas sempre me dei bem com as pessoas que gostam de mim. Eu precisava de um nome que seria maneiro de pronunciar e que tivesse a ver comigo também.” 

Com uma voz que faz os fãs flutuarem em cada hertz, DomLaike tem uma inteligência musical apurada para lançamentos. “A gente não pode errar. Depois que lança a música, não tem como relançar. É um tiro só. Tem que acertar o alvo. Porque se a gente não acertar, o alvo vai acertar a gente”, pontua. Dom também não escreve as letras que ele compõe. Vai gravando de pedaço em pedaço, ouvindo o beat, revelou.

Quem o segue nas redes sociais (não só ele, como qualquer membro da Offlei), percebe que a cor vermelha está presente não só nas fotos de perfil, como em vários aspectos da estética do artista. Pois bem, um spoiler do novo álbum de DomLaike, que ainda não tem data definida de lançamento, veio: “O vermelho é o código do álbum. Significa a cor do sacrifício que é o sangue de nós favelados. Como eu falei ‘fez dinheiro? Sair da favela é mais confortável, mais fácil’. Agora, fazer dinheiro e continuar assim aqui requer um sacrifício. A gente sangra pra ser favelado. Uma mudança que acontece dentro da favela é sangue. Pra gente se manter aqui é sangue. Esse vermelho significa o sangue de todos os crias, de todos os moradores que vivem dentro da favela.”

Clipe de “Trajadão”, um dos sucessos de DomLaike

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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