OPINIÃO | Estamos mesmo evoluindo?

Senegal's coach Aliou Cisse reacts during the Russia 2018 World Cup Group H football match between Senegal and Colombia at the Samara Arena in Samara on June 28, 2018. / AFP PHOTO / EMMANUEL DUNAND / RESTRICTED TO EDITORIAL USE - NO MOBILE PUSH ALERTS/DOWNLOADS
Senegal's coach Aliou Cisse reacts during the Russia 2018 World Cup Group H football match between Senegal and Colombia at the Samara Arena in Samara on June 28, 2018. / AFP PHOTO / EMMANUEL DUNAND / RESTRICTED TO EDITORIAL USE - NO MOBILE PUSH ALERTS/DOWNLOADS

“Sou o único técnico negro nesta copa. É uma realidade dolorosa que me incomodou. Acredito que o futebol é universal e que a cor da pele tem pouca importância no jogo”, comentou Aliou Cissé, técnico de Senegal em coletiva de imprensa durante a primeira fase da Copa na Rússia.

O atacante toca a bola e começa a partida. Onze jogadores de um lado, onze jogadores do outro. Torcidas apaixonadas e espalhadas por todo o canto do planeta. É o encontro de diferentes povos, culturas e filosofias: isso é Copa do Mundo, meus amigos.

Mas espera aí… não vamos perder o foco, o que foi dito pelo comandante do Senegal é importante. Já reparou a pouca diversidade racial entre os técnicos de futebol? O predomínio de treinadores brancos no comando das equipes é um fato. No Campeonato Brasileiro deste ano, por exemplo, somente Roger Machado, do Palmeiras, e Jair Ventura, do Santos, fogem desse padrão.

Definir a competência de um profissional pela cor da sua pele é no mínimo uma tremenda ignorância. O senegalês Cissé, além de ser o único treinador negro da Copa, também chamou a atenção por receber o menor salário entre todos os outros técnicos da competição – inclusive se comparado aos profissionais de países com poder econômico semelhante.

A história do futebol mundial passa pelo talento de craques brasileiros como Garrincha, Ronaldinho Gaúcho e Pelé – todos negros. Porém, nos cargos administrativos do esporte, a situação não se repete. “Quem faz o espetáculo é o negro, mas quem comanda não é ele. É uma reflexão importante a ser feita”, declarou Marcelo Carvalho, diretor do Observatório de Discriminação Racial no Futebol em matéria ao site do Globo Esporte.

O mercado esportivo cada vez mais demanda maior especialização e, para isso, os profissionais precisam de uma base educacional qualificada. O acesso à educação brasileira, no entanto, sempre privilegiou os classificados dentro de uma maioria social – homens brancos, héteros e ricos. Dessa forma, ao longo do tempo, desfrutaram de uma melhor estrutura pedagógica, o que possibilitou o alcance a cargos de gerência, comando técnico e comissão.

Em contrapartida, os tidos como minoria social – negros, pobres, indígenas, entre outros –, historicamente não contaram com as mesmas oportunidades, o que se torna um forte indicador para o número inferior de profissionais com acesso a essa dinâmica de gerência esportiva, logo ocupando um número menor de cargos administrativos dentro das equipes. “Os brancos têm os maiores salários, sofrem menos com o desemprego e são maioria entre os que frequentam o ensino superior”, aponta a Agência IBGE.

Contudo, a situação de Aliou Cissé na Copa demonstra que o debate é mais amplo, ultrapassando as fronteiras brasileiras. Segundo o The Guardian – jornal diário nacional britânico –, em 2014, havia somente quatro técnicos negros ou representantes de minorias étnicas entre os 92 clubes da Premier League e da Football League – competições do futebol inglês –, resultando em menos de 5% do total.

Quatro anos depois, em uma Copa do Mundo marcada pelas evoluções tecnológicas, apenas uma seleção é comandada por um treinador negro. Então que fique o questionamento: será que realmente estamos evoluindo?

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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