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Rock in Rio: Mesclando nostalgia e modernidade, Banda Drenna traz pop rock empolgante para o Palco Favela

Com músicas que lembram Pitty e Paramore, Drenna, que se apresenta dia 08 de setembro, leva positividade para o festival mais famoso do planeta
Foto: Selma Souza / Voz das Comunidades

Falar sobre gerações dentro do público consumidor é quase um êxtase de identificação. É olhar um pouco para trás e relembrar de grandes momentos que fizeram parte da trajetória de indivíduos. Mas diante de grandes fenômenos sociais, essas histórias particulares se juntam, resultando em uma grande auto estrada de lembranças e nostalgia. Quando você se depara com algo moderno, que lembra os tempos antigos, a identificação vem tão rápida quanto o som de um toque na bateria.

Na música não é diferente. O som, em harmonia de guitarras, contrabaixos, baterias, canto e estilo despertam emoções diferentes, principalmente quando nos deparamos com o atual, que tem gostinho do antigo. Os crescidos das décadas 90 e 2000 podem muito bem provar este sabor de nostalgia ao se encontrar com o som da banda Drenna e suas músicas com nos fazem lembrar não só às bandas da época, mas a tudo que foi possível viver naquele tempo.

Rock de favela

Foi na Zona Oeste que ocorre o encontro entre a banda e a equipe do Voz das Comunidades. Mas eles não surgiram lá. Longe do caos urbano das outras regiões, a Mata Atlântica ganha espaço e as poucas buzinas de carros e roncos de motos dão espaço para um silêncio quase ensurdecedor, o que proporciona aos músicos da banda um ambiente total de imersão e concentração em novos trabalhos. É lá que encontramos Milton Rock, Bruno Rodrigues e Drenna Rodrigues, que, não por acaso, leva no próprio nome não só o título da banda, mas a responsabilidade enquanto fundadora do conjunto.

Drenna conta que a banda nasceu no bairro Olaria, em 2009. Ela já tinha passado por algumas bandas e, durante esse processo, compôs músicas; estas que estavam engavetadas. “Durante um tempo fiquei só fazendo como se fosse músico de noite, sabe? Tocando em bar, essas coisas com outras bandas assim. Até que chegou um momento que eu estava muito assim, querendo tocar as minhas músicas. E aí surgiu uma oportunidade de fazer parte de um festival de rua mesmo, em Olaria. Então me chamaram e respondi que ia. Eu não tinha banda, mas queria participar. Então chamei o Milton que me disse pra gente fazer um duo (bateria e guitarra). Deu tão certo que, seis meses depois, a gente estava entrando no estúdio pra gravar nosso primeiro disco.”

Milton conta que todos foram estudar música na escola Villa Lobos. A partir disso, ainda que tivessem a experiência e o conhecimento musical, todos queriam surgir de composições autorais (que Drenna já tinha) e não curtiam mais ficar tocando outras músicas. Com essas inspirações, a banda gravou o seu primeiro disco. “E nessa construção que a gente começou a se profissionalizar. Fomos atrás dos elementos para ter uma estrutura de banda mesmo, como como compositor, como arranjador, como músico e assim por diante. Começamos a circular, trabalhar e então viemos parar aqui.”

Milton é baterista e tocou ao lado de Drenna no primeiro festival de música, em Olaria
(Foto: Selma Souza / Voz das Comunidades)

No circuito Banco do Brasil, a banda teve um contato bem próximo com outras que já eram mais conhecidas. A Drenna tocou ao lado de artistas como Pitty, Kings of Leon, Frejat e Paramore. “Foi irado!”, conta Drenna. “Foi o nosso primeiro grande festival e, atrás do palco, a galera muito receptiva.” Bruno complementa. “A gente vem fazendo o nosso trabalho mesmo com todas as dificuldades. E aí tem eventos como esse que acaba dando essa abertura pra gente, com pessoas dispostas a abrir portas pra nós e amplificar o nosso trabalho. É gratificante!”

Gratificante também é o carinho dos fãs que a Banda Drenna recebe. “Governador Valadares é a nossa terra, sabe?”, revela a vocalista. Eles também falam que, no nordeste, a Drenna também faz um sucesso gigantesco, com direito a seguidores e fã-clube. Bruno e Drenna trazem a reflexão do sucesso da banda ser maior fora da capital carioca justamente pela carencia de festivais de rock nestes espaços. “O público destas cidades vão ver bandas rock em festas como aniversário da cidade, festa do tomate, coisa assim. Festivais de rock mesmo são mais difíceis. Mas, quando a gente vai, uma banda que tem um trabalho autoral e participa de rádio local, TV local, cria-se uma identificação com o público e as pessoas passam a conhecer e seguir o nosso trabalho”, contam. Milton brinca que a banda já tocou tantas vezes em Minas Gerais que muitos acham que a banda é mineira e não do Rio de Janeiro.

Bruno é baixista da banda e agradece muito aos fãs pelo carinho e ídolos pelas oportunidades.
(Foto: Selma Souza / Voz das Comunidades)

Favela é plural

Logo que o assunto chega em lugares significativos, um questionamento é realizado para a banda quanto à construção cultural de onde vieram. Nas comunidades do Rio de Janeiro, muito se observa a cultura do trap, funk e samba e dificilmente se vê um rock no estilo da Banda Drenna. “A favela é um espaço muito plural”, responde Milton, que destaca que, mesmo com ritmos mais populares, a comunidade é feita de diversos públicos e muitas identidades.

Drenna também faz a observação ressaltando que o fato da banda surgir em um território que já tem um “carimbo social” de cultivo de funk ou samba, ainda sim as pessoas de dentro da comunidade podem ser quem elas quiserem ser. “As pessoas não precisam se enquadrar ao meio que ela está inserida. Ela pode muito bem virar. Mudar. Ser quem ela quer ser”, comenta.

Processo de criação

O processo criativo de Drenna segue uma linha por etapas, mas não necessariamente que seja seguido a risca. A vocalista explica que muitas vezes a melodia surge antes da letra, assim como o processo inverso. “Tem vezes que surge no próprio estúdio com todo mundo. Tem vezes que é uma música que não está finalizada e a gente acaba terminando junto. E cada música consegue seguir um processo diferente. Então, nas etapas finais, basta a gente lapidar”. Drenna ressalta que o processo de composição vem de várias situações, que pode ou não ter relação direta com a realidade ou algo próximo à ela. “Você passou por uma situação ruim naquele momento, mas depois você parou pra pensar sobre aquilo. E, pô, aquilo virou uma música, entendeu? A música “Guerra” foi assim. Foi até um lance aconteceu no Complexo do Alemão que conta uma história uma história triste, infelizmente, mas que lança luz sobre essa necessidade de preocupação com as crianças que estão na comunidade. É baseada em uma história real de uma criança que morreu por causa da invasão. Foi muito pesado para mim na época.”

Na esperança de dias melhores para as comunidades, a banda Drenna sonha em fazer um grande festival dentro do Complexo do Alemão. Juntando talentos do morro para um grande festival de música, a ideia ganha vida durante a entrevista. Selma, a fotógrafa do Voz das Comunidades, anima-se com a ideia. Moradora há quase 50 anos do Complexo do Alemão, ela aborda durante a entrevista os grandes projetos sociais do ramo cultural dentro do conjunto de favelas da zona norte do Rio. Milton, Bruno e Drenna levantam a bandeira do festival ainda não batizado, mas que já tem a Banda Drenna como participante confirmada.

Drenna no Espaço Favela

“E, falando em festival, como foi o convite do Rock in Rio?”. Milton responde rindo quando lembra da chegada do convite. “Oito horas da noite eu estava no ponto de ônibus e o celular começou a tocar. Eu não sou de atender celular, ainda mais à noite e na rua. Mas atendi. Era o Zé Ricardo, falando pelo Rock in Rio… Mas é óbvio que eu não acreditei. Achava que era trote e até parabenizei o “suposto” Zé Ricardo. Falei pra ele ‘liga depois. Você já ganhou teu dia. Você ganhou o trote do dia. Caí’. Aí ele ‘Não, cara, é o Zé Ricardo mesmo’. Aí ele foi falando e eu fui acreditando.” Milton conta que chegou em casa sem acreditar. O “suposto” Zé Ricardo disse que a secretária entraria em contato com ele no dia seguinte. E aconteceu mesmo. Depois que ele validou as informações com Fabiana é que a ficha finalmente caiu. Drenna, por sua vez, tinha colocado na agenda, para montar o repertório do Rock in Rio, sem saber absolutamente nada. Como mágica, surge a oportunidade de participar do festival no Palco Favela.

Banda se apresenta no Palco Favela e está ensaiando bastante para o festival.
(Foto: Selma Souza / Voz das Comunidades)

Sobre a mensagem que a banda almeja deixar para o público do Rock in Rio, a vocalista é direta. “A mensagem é que as pessoas continuem a seguir o caminho que elas pré-estabeleceram para elas mesmas. Toda vez que alguém te desmerecer, você tem que criar mais força. E é isso. Esse desmerecimento é tua força, pra você chegar onde você quer chegar. A nossa mensagem é fazer com que as pessoas entendam que elas tem um objetivo de estar aqui nesse mundo. Seja lá qual for.”

Drenna ressalta também sobre a valorização do trabalho das mulheres dentro do cenário musical. “As pessoas nunca dão crédito a mulheres instrumentistas, sabe? Já é um desafio por si só e eu sempre falei ‘cara, eu não quero aceitar isso, eu não quero aceitar isso de ‘ponta‘ está entendendo?’ Eu não quero ser só da base ali. Eu quero tocar, solar, fazer o que eu quiser na guitarra e com propriedade. Sobre a questão do empoderamento feminino, tem gente que fala que tem pouca mulher no cenário. Claro que não! Na verdade tem muita mulher, mas que está em um espaço que é muito pequeno. As pessoas tem que ter uma uma visão menos preconceituosa e mais ampla, né?””

A Banda Drenna se apresenta no dia 8 de setembro no Palco Favela no Rock in Rio e promete um grande espetáculo para o público do festival.

Texto: Rafael Costa
Fotos: Selma Souza
Produção: Gustavo Eduardo
Revisão: Jonas Di Andrade

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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