“Mesmo sendo diferente, vou votar em você pela sua coragem”

Almir Lima

Preconceito Racial em concurso de beleza

Não há nada mais comum do que um jovem negro morador de favela, mas este em especial, foi alvo de um problema crônico aqui do Brasil, o preconceito racial, em um dos países mais mestiços do mundo. O estudante do segundo ano do ensino médio se orgulha em dizer que tem mais de cinco diplomas no currículo e a mais nova conquista do Almir Lima foi ganhar o tudo de Garoto da Favela do mês de junho, concurso de beleza promovido pela equipe de produção do jornal Voz da Comunidade.

Depois de uns dias de insistência da amiga Karen Almeida, eleita a garota da favela de maio, o rapaz cedeu e fez a inscrição na página do concurso. Pouco depois, começou uma chuva de racismo e preconceito.

“Mesmo sendo diferente, vou votar em você pela sua coragem” e “Ele só está ganhando porque foi no zoológico e chamou um grupo de gorilas para votar nele”. Estes foram alguns dos comentários publicados na foto de Almir. O rapaz diz que preferiu ignorar as ofensas para “não dar muita ideia”.

Almir diz que nunca imaginou que daria essa repercussão toda e muito menos que ganharia com a quantidade de votos com a qual foi eleito. “Quando eu comecei a perder, por estarem me boicotando, uma colega que é ligada a grupos de comunidades negras entrou em contato com eles informando sobre o racismo e preconceito que estavam gerando sobre minha imagem. Quando vi, o pessoal todo estava me apoiando.” Sobre a repercussão, ele diz que o caso foi positivo apenas por ganhar o concurso, devido ao apoio, e principalmente, para abrir a discussão sobre o assunto criminoso. No total, foram 134 postagens ofensivas na página do Garoto e Garota da Favela.

A quantidade de curtidas foi tão grande que muitas pessoas suspeitaram de que o jovem estaria trapaceando no concurso. Após as denúncias, a equipe da produção do Voz da Comunidade iniciou uma investigação e foi comprovado que todas as curtidas são válidas e que nenhum tipo de dispositivo hacker foi detectado. “Das oito mil curtidas, acredito que sete mil delas foram por conta do apoio que tive das comunidades negras”, comenta.

Almir não tem certeza se vai entrar com um processo contra as pessoas que o discriminaram. “É uma situação muito grave e eu e minha família vamos pensar com cuidado sobre o assunto. Acredito que essas pessoas devam receber algum tipo de retaliação, sim! Não posso deixar para lá como a maioria das pessoas costuma fazer”, declara o jovem, que pretende cursar Direito assim que concluir o ensino médio.

Questionado sobre o que diria, caso tivesse algum contato direto com uma dessas pessoas, Almir diz que não tem muito o que falar e acredita que a pessoa deve ter muita vergonha. “Não sou diferente de ninguém, melanina todo mundo tem, todos somos iguais e viramos a mesma coisa quando morremos.”

Morador da Praça do Samba, na comunidade da Alvorada, o estudante relata que perdeu as contas das vezes em que já tomou “dura” da polícia. Ele acredita que a cor da sua pele influencia na quantidade de abordagens. “Inclusive, vindo para esta entrevista, quando saí de casa, fui abordado. Se eu fosse loiro de olhos claros, acredito que não seria parado com tanta frequência.”

Para o rapaz de 17 anos, ganhar o concurso não foi apenas uma competição de beleza e sim, uma grande campanha contra o racismo. O caso de Almir gerou uma grande movimentação e até hoje tem pessoas que entram em contato para dar os parabéns. “Fiz muitos amigos. A diferença vem no modo de falar, um “Parabéns, negão” que recebo no dia do meu aniversário é diferente de um “coisa de preto”, que é muito comum a gente ouvir por aí. Lembro que na escola me chamavam de “tiziu”. Racismo não é um problema só da atualidade e deve ser visto como crime, sim! ”

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