OPINIÃO – Esporte bretão: pura malícia tropical

ARTIGO DE OPINIÃO – Salve simpatia, eu quero ser jogador de futebol…

O futebol, ardente paixão dominante em todo território latino-americano. Das várzeas desniveladas aos gramados. Todas as periferias e favelas, do capão até a Rocinha, de La boca até Cartagena. O futebol encarado e revestido como narrativa social pelo qual tornou-se um espaço importante e contundente na formação de identidades e expressões culturais e regionais. De modo que as paixões/emoções em relação aos praticantes são objetivos de estudos sociais atualmente. De fato, nesse sentindo amplo, o esporte passou a fazer parte de uma expressão cultural o qual foi definitivamente atrelado as artes populares criando afinidades com outros movimentos. Por sua vez no passado ao embarcar no Brasil como esporte de elite foi agarrado com força pelas camadas populares que trabalhavam nas cidades, e o fizeram do esporte uma catarse, diferentemente da indagação que seria apenas fogo de palha segundo Graciliano Ramos. Pois é, não foi mero fogo de palha, foram labaredas incontáveis jorradas para o povo sobretudo por sua simplicidade e facilidade de regras e práticas. Isto posto, ao longo dos anos, o mesmo foi deturpado por uma visão sectária por algumas correntes de pensamento inerente ao tramite político, embora atualmente o futebol seja visto na sua totalidade como compreensão do fenômeno esportivo e o agenciamento humano como expressão de cultura popular. Sendo assim o futebol visto como modelo analógico da sociedade brasileira.

Há alguns anos, alguma força maior fazia-me levantar todos os dias bem cedo para jogar bola na escolinha do CYPA, talvez fosse a melhor hora do dia. Outros meninos do Vidigal faziam o mesmo, como fosse um ritual. Treinávamos em um campinho de várzea irregular pouco estruturado e com redes rasgadas, no entanto como uma imaginação apurada e floreios nos pés e ao comando daquele cujo foi o homem que sabia a importância do esporte para os meninos e meninas da favela. Criando assim uma cidadania deslocada de acordo com Roberto Da Matta. Sua originalidade, naturalidade e potencialidade espontânea de pertencimento do lugar que habitávamos. Fazíamos daquele espaço uma extensão de nossa casa, víamos um belo esboço naquele espacinho apesar das adversidades o qual tínhamos por lá. Havia uma preocupação e paixão pelo pedacinho de terreno desnivelado. Era o nosso terreiro. Embora fosse necessária uma organização e também algumas ínfimas reformas feitas pelos próprios moradores até mesmo para a realização das peladas dos fins de semana e treinos, Não obstante, nesse período, o Vidigal também vivia um momento difícil, pois havia uma disputa de grupos paraestatais, ou seja, a qualquer momento um inevitável tiroteio poderia acontecer enquanto brincávamos de bola. Todavia apesar dessa mácula isso não era empecilho para conosco, pois queríamos jogar e não importava o que poderia acontecer.

Talvez pudesse ser uma mimese do futebol sendo traçado com nossa realidade. Em uma dinâmica rítmica, quase divinal havia uma malícia em nossas pernas, um gingado, um corpo aberto no espaço, pura hesitação, muita fibra. Chamávamos todos eles para descer ao espaço para abençoar as quatros linhas de cal do campinho: salve Garrincha, Salve Leônidas, Salve Jairzinho, Salve Milton Santos… Íamos com as blusas surradas que tínhamos em casa, pouco aparato, mas um poderio imaginativo. Cada toque na bola era uma felicidade. Tudo foi mudando com o tempo desde que parei, entretanto, as novas gerações de meninos e meninas irão reinventar e pertencer ao espaço aberto na viela.

Esta coluna é de responsabilidade de seus atores e nenhuma opinião se refere à deste jornal.

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