Onze anos após tentativa de pacificação do Alemão, saldo com a comunidade ficou no negativo

Em 11 anos, dados mostram que tiroteios e mortes nas comunidades cresceram com a presença do Estado

Foto: Selma Souza / Voz das ComunidadesFoto: Selma Souza / Voz das Comunidades

O dia 28 de novembro de 2010 marcou a vida dos moradores do Complexo do Alemão. A ocupação do território do Alemão pelas forças policiais contou com milhares de militares, em plano de ação de guerra completa, com tanques de guerra, helicópteros, além de blindados circulando pelo conjunto de favelas do Alemão. Aquele domingo de 28 de novembro foi o Dia D da megaoperação, que durou cerca de três dias. A realidade de violência no Complexo do Alemão, nos 4 anos que antecederam à ocupação da comunidade, foram de certa forma usados como justificativa para uma intervenção na comunidade e as Unidades de Polícia Pacificadoras apresentadas pelo poder público como uma solução para esta realidade. 

Histórico antes da ocupação

Em agosto de 2006, dois homens morreram em confronto com a polícia durante uma operação policial na comunidade. No ano seguinte, em 2007, a cidade do Rio realizava os Jogos Pan-Americanos. O evento esportivo ocorreu com grande operação logística e organizacional. Durante os Jogos, um grande cerco policial foi montado no conjunto de favelas do Alemão, para supostamente garantir a segurança do evento internacional. No dia 27 de junho de 2007, sucedeu-se a maior (até então) operação da história do Complexo do Alemão. 

O saldo daquela ação policial terminou com 19 pessoas mortas e outras 13 pessoas feridas, entre elas uma estudante que estava na escola e uma criança. Na ocasião, treze corpos foram recolhidos pela própria polícia e outros seis foram deixados à noite numa van em frente à 22ª DP (Penha). Dos mortos na operação, oito não tinham antecedentes criminais. Entre os feridos, sete pessoas foram vítimas de balas perdidas, além de um policial e cinco suspeitos atingidos. A operação reuniu 1.350 policiais, entre civis, militares e soldados da Força Nacional.

No dia 17 de setembro de 2008, cerca de 800 policiais ocuparam o Complexo do Alemão. Naquela ocasião, dois homens morreram em confronto com a polícia, além de um policial ser baleado. Em 2009, um ano antes da ocupação do Alemão, os meses de setembro e outubro ficaram marcados por intensos tiroteios na comunidade. Naquele período, episódios de crianças agachadas em corredores de escolas municipais da região viraram recorrentes. Em outubro, mês que foram anunciadas as olimpíadas no Rio em 2016, foram registrados pelo menos dois grandes confrontos na comunidade no dia 21 e 24 daquele mês.

Ano marco do Alemão

Em 2010, os olhos do mundo estavam voltados para o Rio, em razão da final da Copa de 2014 e das Olimpíadas em 2016. Na manhã do dia 26 de novembro de 2010, foi iniciada a ocupação do território do Alemão pelas forças policiais. Milhares de militares subiram o Complexo do Alemão simultaneamente por todas as suas entradas. No dia 28, a comunidade foi totalmente ocupada pelas forças militares do Estado. O episódio marcou não só o Complexo do Alemão, mas todo o Brasil. No Rio de Janeiro especificamente, criou-se uma expectativa com relação a uma mudança na realidade das favelas do Rio, com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadoras. Em 2011, após 6 meses de ocupação pelas forças militares, iniciou-se o processo de pacificação na comunidade.

Mas, após dois anos, ficou perceptível uma deterioração do programa e uma sensação de volta ao passado. Em maio, o comércio do Alemão chegou a ficar fechado entre os dias 23 e 24, por conta de tiroteios na comunidade. Nesta época, os intensos tiroteios durante a noite e madrugada eram uma realidade. Meses depois, no dia 20 de agosto, um tiroteio na comunidade deixou um policial militar ferido e um morador menor de idade baleado.

Moradores como maiores vítimas 

Em 2014, a violência retomou com força total ao conjunto de favelas do Alemão. No dia 27 de abril, o Beco do Vivi, no Alemão, foi o local da morte de Dalva Arlindo de Assis, de 72 anos. A idosa foi baleada ao tentar proteger o sobrinho, de 10 anos, e acabou sendo atingida por disparos na virilha e na barriga. Neste ano, cerca de 27 moradores foram baleados nas favelas do Alemão, dentre essas, quatorze morreram. Seis policiais também faleceram nos confrontos. Em 2015, os intensos confrontos ocorreram na Rua 2, na Alvorada. O local testemunhou a morte de  Elizabeth Moura, 41 anos, que estava com a família em casa, sentada em seu sofá, quando foi atingida por um tiro no pescoço. No dia seguinte, a Polícia Civil do Rio fez uma operação de reconstituição da morte, na qual Eduardo de Jesus Ferreira, de apenas 10 anos, foi atingido por um tiro na cabeça enquanto aguardava, na porta de sua casa, sua irmã chegar do trabalho. Em 2015, 44 pessoas foram atingidas em troca de tiros no Complexo do Alemão. Destas, 22 pessoas morreram. 

Aumento da violência 

De 2016 a 2021, a plataforma Fogo Cruzado iniciou a coleta de dados de violência no Alemão. Segundo a plataforma, foram ao todo 100 registros de tiroteios/disparos na comunidade, sete pessoas mortas e 23 feridos apenas em 2016. No ano seguinte, os números cresceram. Foram 172 registros de tiroteios/disparos no Alemão, 11 pessoas mortas e 36 feridos. A crescente da violência se perpetua em 2018. O número de ocorrências chegou a 265. Foram ao todo 16 pessoas mortas e 26 feridos. Em 2019, os números continuaram aumentando. Foram 275 tiroteios/disparos, 27 mortos e 26 pessoas feridas. Este ano ficou marcado por mais uma morte brutal. Em setembro de 2019, a pequena Agatha Felix, de oito anos, foi atingida enquanto voltava para casa de Kombi com a mãe, na Fazendinha. Na hora em que foi baleada, não havia confronto na localidade. 

Em 2020, os números de tiroteios/disparos diminuíram em mais de 50% comparados a 2019. Foram registrados 121 confrontos no Alemão, 18 mortes e pessoas feridas. Contudo, destas 18 mortes, 13 foram em menos de 24h. Na manhã do dia 15 de maio de 2020, em meio ao isolamento social da pandemia da Covid-19,  a Polícia Civil e o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do RJ (BOPE) realizaram operação no Complexo do Alemão. O dia ficou marcado pela cena dos moradores de algumas localidades descendo a comunidade com corpos de homens considerados suspeitos pela polícia.  

Neste ano de 2021, até o momento em que esta reportagem foi escrita, já houveram 79 confrontos no Complexo do Alemão, uma morte e 10 pessoas feridas. O mês de janeiro foi o que registrou mais tiroteios, em um deles, no dia 13, a equipe do Voz das Comunidades teve o celular quebrado enquanto acompanhava uma incursão policial. Na abordagem, os policiais o revistaram e quebraram o celular utilizado para reportagem do Voz das Comunidades. Um iPhone X , adquirido a partir de doação. Recentemente, no dia 10 de outubro, Vanessa Cabral Martins de Oliveira, de 28 anos, foi baleada no abdômen, dentro de casa, enquanto dormia. Vanessa é uma mulher PCD –  Pessoas com Deficiência – e foi atingida à luz do dia, durante uma incursão policial na localidade da Grota.

Quem vivenciou o guerra

Nascido e criado no Complexo do Alemão, Luciano Daniel de 22 anos é o fundador do Projeto Crianças Felizes, ele, como outros tantos moradores da comunidade, cresceram em meio a montanha russa de violência na favela. Luciano comenta sobre como o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora deram uma falsa esperança de mudança para os moradores do Alemão. 

“A expectativa era de paz e oportunidade. Na época, tinham muitas coisas funcionando, cinema, nave do conhecimento, vila olímpica, teleférico, não esperávamos que isso tudo fosse parar ou acabar. Achei que teria paz, mas foram poucos anos de tranquilidade e o que vimos foi voltar tudo de novo”, comentou Luciano. 

No ano de 2010, Luciano tinha apenas 11 anos, hoje aos 22, é pai e tem uma família que também mora no Complexo do Alemão. Ele fala sobre como o fracasso no projeto afetou tantas vidas na comunidade. “Quando não vi aquela paz prometida, eu pude entender que quem deveria os proteger ficou somente no nome. Olhamos para trás, vemos muito dinheiro gasto à toa sem retorno. Tanto na ausência de projetos sociais, quanto na estruturação do projeto das Unidades de Polícia Pacificadora. Faltou comunicação entre a polícia e a favela. Faltou diálogo com os moradores”.