OPINIÃO | Emilly e Rebeca: Sonhos precocemente interrompidos pelo cantar de fuzil do Estado

Não foram só duas crianças que foram friamente alvejadas. Uma família foi despedaçada, destroçada, arruinada. Quem vai amparar esta família? Por quais meios vão dar suportes à ela?

OPINIÃO | Emilly e Rebeca: Sonhos precocemente interrompidos pelo cantar de fuzil do Estado

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

“Tinham quatro crianças no local, mas duas correram… uma pequena saiu e puxou a maior… as outras não teve a mesma sorte… tinha um futuro guardado pra essas duas meninas… eu não vou ficar calada! Eles podem até não ser presos, mas vamos incomodar eles. Não é porque a gente mora em comunidade que não somos seres humanos.” Avó da Rebeca

Infância é um período de muitas descobertas e aprendizados que todos nós seres humanos experienciamos. Desde brincadeiras já existentes ou criadas no momento até pequenas responsabilidades, aos poucos tomamos consciência do mundo que nos cerca e das diversas percepções, sensoriais, motoras e afetivas. Ser criança é ter um “montão” de amigos com quem a gente pode dividir nossos tesouros (brinquedos) e segredos pueris, que os adultos talvez nunca compreendam. Ser criança é sonhar acordado o possível e impossível. Mas, como todo sonho, um dia ele acaba. Para algumas com a vida adulta, faculdade, trabalho… para outras com a polícia invadindo a favela e atirando a esmo. 

No dia 6 de dezembro acompanhei desde o começo um Ato Urgente por duas meninas na Praça Raul Cortez, Duque de Caxias: Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, que contava 7 anos, e Emilly Victoria que completaria 5 anos este mês. Elas foram baleadas na cabeça por agentes da Polícia militar, segundo a família, enquanto brincavam na porta de casa na comunidade Barro Vermelho, no Jardim Gramacho, Baixada Fluminense. Emocionados, mas aguerridos, moradores e familiares das vítimas chegaram no meio da praça, após descer de um ônibus, portando cartazes no quais estavam escrito: “Justiça por Emilly e Rebeca”, “Vidas Negras Importam”. Além disso, todos clamavam por justiça.

Iniciado as falas, a mãe de Emilly, Ana Lúcia Silva Moreira, bastante emocionada, reforçou que não havia confronto na comunidade onde ela se localizava. A avó de uma das meninas, em seguida, contou, muito abalada, que estava chegando do trabalho e que escutou, no mínimo, dez disparos. Quando parou próximo de casa, as meninas estavam no chão mortas. Desejou não ter visto aquela cena. Em lágrimas, disse que preferia ter levado um tiro no lugar delas, porque só assim não sentiria a dor que estava sentindo. Mas que iria lutar por elas, pois eram humanas assim como qualquer outra criança e não mereciam o fim que tiveram. Neste instante, não houve uma pessoa naquele lugar que não se emocionou ao vê-la narrar o que se sucedeu naquele dia.

Com o microfone Ana Lúcia Silva Moreira, mãe da Emilly. Segurando o cartaz, atrás, Lídia Santos, avó da Rebeca. Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Duas meninas, negras, por conta da violência, tiveram a infância não só interrompida de maneira precoce, como seus sonhos finalizados e, consequentemente, levados para o túmulo. Destaco entre vírgulas a cor dessas crianças, é essencial explicar, porque no Brasil ser socialmente lido como negro(a), a partir do racismo que estruturou e estrutura nossa sociedade, é carregar esteriótipos, marcações de classe, desafetos e desumanização. E, isso, inclusive, faz com que muitas pessoas, que não vivenciam aquela realidade, naturalizem suas mortes e também culpabilizem as vítimas por morarem em favelas e periferias – como se fosse escolha delas viverem ali, e não devido à desigualdade socioeconômica que existe há muito tempo neste país -. Ademais, muitos meios de comunicação insistem em escrever que as balas que atingem esses corpos são “perdidas”, quando, na verdade os alvos dessa violência brutal são sempre os mesmos e têm: cor, CEP, classe, gênero e território. Alguém já acompanhou algum tiroteio em áreas ditas nobres da cidade? Copacabana, Leblon, Barra da Tijuca, por exemplo? A resposta de todos provavelmente foi unanime.

O genocídio do negro brasileiro, tal como expôs e argumentou Abdias Nascimento, é um projeto ainda em curso. O Estado assim como no século passado (o qual construiu políticas de branqueamento para dizimar o genes africano da sociedade) tem papel fundamental nesse extermínio. Pois, executá-o por meio do seu aparato repressivo (Polícia Militar), tendo por base o que chamamos hoje por Necropolítica, ou seja, política de morte, que dita quem deve viver e quem deve morrer, mas não só isso. Inclusive, o racismo tem lugar proeminente nesse processo de aniquilamento muito bem operado e articulado. Segundo Foucault, filósofo, teórico social do século XX, o Estado Nazista foi o mais complexo exemplo de um Estado exercendo o direito de matar. Ainda que estejamos em outro contexto geográfico, histórico, social e político, pode-se perceber que o Estado Brasileiro tem agido de forma, ouso dizer, bastante semelhante, em se tratando de pessoas negras em territórios que são não só criminalizados, como também racializados (favelas e periferias).

Para que possamos ter uma ideia mais concreta, o Rio da Paz, desde 2007, acompanha os casos de crianças mortas vítimas de armas de fogo. De acordo com essa ONG, a estatística contabiliza, desde então, 79 crianças vítimas da violência no Rio de Janeiro. A maioria delas foram alvos de balas “perdidas”. Juntamente com esses casos, sobe para 12, só este ano, o número de crianças assassinadas por armas de fogo no Estado do Rio de Janeiro até o dia 5 deste mês. Ou seja, uma criança por mês, de acordo com estatísticas deles. 7 foram assassinadas, em 2019. Entre janeiro do ano que passou (início do governo Witzel) até esse último sábado de 2020, foram 19 crianças mortas. Como esquecer João Pedro, 14 anos, Kauê, 12 anos, Kauan, 12 anos, Jenifer, 11 anos, Kauã, 11 anos, Ágatha Felix, 8 anos, e Kethelen, 5 anos e tantas outras, cujo nomes muitas vezes infelizmente esquecemos? Essas, citadas, são uma das que foram vítimas da truculência, da violência estrutural, praticas pela Polícia Militar, dirigida aparentemente de modo arbitrário pelo estado, que foram noticiadas. Se pararmos para observar onde moravam, qual a cor da pele, vamos compreender que não se trata de apenas fatalidades, mas sim genocídio.

Cartazes expostos no chão da praça Raul Cortez, centro de Duque de Caxias, local do ato ocorrido no último domingo (6). Foto: Vilma Ribeiro/ Voz das Comunidades

Não foram só duas crianças que foram friamente alvejadas. Uma família foi despedaçada, destroçada, arruinada. Quem vai amparar esta família? Por quais meios vão dar suportes à ela? Como se não bastasse enfrentar a falta de água, a ausência de auxílio alimentício por parte do Estado, direitos básicos, porque ainda se está numa pandemia e as populações mais vulneráveis são as que mais sofrem, agora terão de encarar a ausência física, de afeto, carinho, de vida, de duas meninas inocentes que tinham um futuro brilhante pela frente.

É imprescindível a responsabilização não só dos agentes responsáveis pela morte delas, como também do Estado. É fundamental que os governantes recém-eleitos repensem a política de segurança, construindo políticas públicas efetivas que contemplem territórios de favelas e periferias, e tenham como cerne da questão o antirrascimo. Cabe também a todos nós cobrarmos, enquanto sociedade civil, a concretização dessas políticas, a fim de que o luto da população negra brasileira não seja eterno. Estamos há mais de 400 anos pedindo para que parem de nos matar. Pessoas negras neste país ainda são consideradas não cidadãs, são apátridas, uma vez que se observa cada vez mais seus diretos civis e humanos violados. Parafraseando as poéticas palavras realistas da escritora Conceição Evaristo, pedimos, ou melhor gritamos, que as balas perdidas percam o nosso rumo e não façam do corpo nosso, os nossos filhos, o alvo. Vidas Negras e Faveladas Importam!