Resistência e solidariedade: O alicerce da periferia

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CRÔNICA – Lembro muito pouco da minha infância. Por isso, busco sempre ir construindo a minha história através das lembranças da minha mãe e pelas fotos que ela guarda há anos. Em um desses retratos eu estou caminhando em uma rua de terra vermelha, onde ficava a casa da Dona Tetê, em uma favela na Vila Aparecida, em Jundiaí (SP), de onde vinha a ajuda necessária para que minha mãe pudesse trabalhar.

Minha mãe compreendeu desde o início de sua experiência materna o quanto os homens fogem de suas responsabilidades. Sem meu pai por perto, durante um bom período, a solidariedade da D. Tetê fortaleceu a sua luta diária. E assim, ela pode cuidar de mim e do meu irmão, ganhando grana com faxina.

Embora eu não me lembre da D. Tetê, foi convivendo com ela, acredito, que algumas sementes boas foram plantadas na minha vida – e cultivadas pela minha mãe. Uma delas me fez entender o significado de solidariedade e da necessidade de colocá-lo em prática. Qualidade presente em qualquer favela.

Anos mais tarde, como jornalista, minhas andanças pelas favelas passaram a ser em busca de histórias, também. A fim de entender a habilidade que as pessoas têm de se reinventar. O talento de muitos que, por vezes, substituí a política pública inexistente. E aprendi que o nome disso é resistência, a força necessária para enfrentar a violência imposta no dia a dia.

Foto: Gustavo de Lima Gerônimo
Foto: Gustavo de Lima Gerônimo

Um exemplo disso é o dia a dia de Lúcia Helena, uma senhora que conheci no Jd. Gramacho, anos atrás. Após o assassinato de seus 2 irmãos, ela decidiu que protegeria a sua família. Na época que estive na casa dela, num barraco de três cômodos se acomodavam seus 4 filhos, mais 4 netos que passavam o dia todo lá, e a filha mais velha que construiu um barraco com o marido, no terreno da mãe.

Atrás dos portões improvisados para que as crianças não saíssem pra rua, Lúcia me disse: “não pude me despedir dos meus irmãos. Não vou deixar que isso aconteça de novo!”. Após se separar do marido, ela resolveu deixar o trabalho para cuidar dos filhos, embora a necessidade pela falta de dinheiro sempre bata na porta. Ela conta que “é mais fácil lidar com a dificuldade pela falta de recursos do que com dor de ver seus filhos e netos mortos ou se envolvendo com coisa errada”.

Essa semana, em várias cidades do Brasil, comemorasse o dia da Favela. No tocante a isso, é importante lembrar que solidariedade e resistência é o alicerce de qualquer comunidade.

Foto: Gustavo de Lima Gerônimo
Foto: Gustavo de Lima Gerônimo

Que haja lembranças.

Que façam festas.

Que haja vida!

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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